Opinião
A cren�a do povo
MILTON HÊNIO * Diz o ditado popular: ?Podendo falar com o padre não fale com o sacristão?. Isso em termos mais elevados, colocado no aspecto religioso, quer dizer que você podendo solicitar a solução dos seus problemas diretamente com o Cristo não o deve fazê-lo com os santos. Não há necessidade de intermediários quando Ele está ao seu lado todos os dias. Este é o pensamento, por exemplo, dos evangélicos e de muitos católicos também. Entretanto, dentro do espírito religioso do brasileiro, em sua maioria, os santos têm um prestígio imenso perante as pessoas, principalmente as mais simples. E então são convocados a toda hora e em todos os lugares do nosso extenso território para solucionar dores e angústias. Dentro do nosso folclore médico há um grande número de santos escolhidos pela população para tratar especificamente de determinadas doenças, ou servir de portador dos pedidos perante Deus. Vejamos: Santa Luzia, nas doenças dos olhos; São Braz, nas enfermidades da garganta; São Benedito, nas mordeduras de cobra; São Lázaro, na lepra e doenças de pele e Santo Antônio, nas dores do amor, entre outros. O povo brasileiro em sua ingenuidade e crença adora apelar para o seu santo querido, aquele que ele acha que é o seu protetor. Vejam, por exemplo, as constantes e longas romarias que o povo nordestino faz para a cidade cearense de Juazeiro, em busca da ?bênção? do Padre Cícero. É impressionante a fé das pessoas simples nesse padre que nem santo é. Pois bem, essa religiosidade das pessoas ajuda muito a elas possuírem uma certa felicidade interior, uma esperança de que as coisas irão melhorar. E é nessa esperança que eles vão levando a vida em meio aos seus sofrimentos. O estudo do folclore religioso é muito interessante e mostra essa crença das pessoas misturada com rezas, danças, cantorias, tudo louvando ao Senhor. O folclore em boa análise é, também, uma expressão sentimental da alma popular; reflete de forma emocional a mentalidade de um povo, a sua sensibilidade, o estado de alma coletivo. O povo tem e faz a sua sabedoria a sua maneira e esta é um místico de cientifico e imaginativo (desejado). Entre os santos tão queridos da população brasileira encontra-se Santo Antônio. No último dia 13, foi o dia a ele dedicado. É uma verdadeira legião de moças e mulheres solteiras, desquitadas e viúvas jovens, tentando encontrar o homem ideal para a sua vida, um bom companheiro. É natural. Todo mundo anseia a felicidade e o santo é por demais solicitado nesse dia para tentar solucionar o problema de todo esse pessoal. Na minha casa era uma tradição a trezena de Santo Antônio. Desde os meus avós até hoje ele é venerado. Na minha infância e adolescência minha casa era cheia durante os 13 primeiros dias de junho. A turma dos anos 50 e 60, hoje com netos como eu, confraternizavam-se numa animação sem igual. As fogueiras enchiam a rua. As labaredas lambiam o ar num frêmito de estonteante alvoroço. Milho assado na brasa e as ?sortes? distribuídas no meio da moçada causando boas gargalhadas. Balões de cores variadas subiam e desciam entontecendo os espectadores. E o sanfoneiro na rua não parava de cantar: ?Cresce o amor dia-a-dia e cresce o amor de hora em hora. Cresce também a saudade quando o seu bem vai embora?. A noite de Santo Antônio da minha infância e da minha juventude vive em minha memória. Aqueles bons tempos já se foram, porém em meu coração a fogueira da saudade continua ardendo sempre. (*) É MÉDICO [email protected]