Opinião
A quest�o central
EDUARDO BOMFIM * Existem, atualmente, no Brasil, duas questões que adquirem, no cenário político, enorme importância. O problema nacional e a questão social. Podemos afirmar que as duas encontram-se extremamente interligadas. Um país de enormes potencialidades e acentuada complexidade industrial, considerado como uma das maiores economias do mundo, possui, no entanto, cinqüenta milhões de pessoas penando abaixo da linha de pobreza. É possível revirar a teoria econômica de juízo para baixo, ou para cima, tanto faz, e buscar explicações técnicas ou teóricas, para tamanha disparidade e desigualdade. Não há justificativa possível para tamanha concentração de renda. Não encontraremos uma saída para combater a criminalidade, a mortalidade infantil ou adulta, desemprego, imensas disparidades salariais, prostituição de adultos e crianças, fome, miséria e tantas outras graves questões, se não iniciarmos o caminho da retomada do desenvolvimento com justiça social. Esta é a preocupação principal do homem, do jovem, da mulher, dos que têm algum conforto e nenhuma segurança, ou cada vez menos. Que vem martelando a cabeça do assalariado, do comerciante, industrial ou agricultor. Estes últimos observam a queda em seus negócios em função do baixo poder aquisitivo dos que compram. Há exceções e representam uma privilegiada minoria. Em um país de dimensões continentais, estes podem ser socados em uma ilha que não precisa ser grande. Cabem perfeitamente, em uma de menor tamanho. O continente fica para os deserdados e aqueles que sofrem com as dívidas ao fim de cada mês. Cito mais uma vez, a professora Tânia Bacelar, reorganizadora da extinta Sudene. Ela afirma que dificilmente existirá no mundo outro país com margens de lucro tão fantásticas. E o problema central extrapola o modo de produção capitalista. Trata-se da mentalidade de grande parte das elites. Herdada do período colonial, de hábitos escravocratas, assevera a ilustre economista e planejadora pernambucana. Vários anos atrás, os poderosos diziam que o problema social era uma questão de polícia. Reafirmado até por um presidente da República, do período anterior à revolução de 1930. Hoje, é preciso muita raça para confirmar tal declaração. Os tempos são outros e os espaços conquistados pela sociedade impedem um depoimento de caráter hediondo, criminoso mesmo. Mas a pergunta que não cala é a seguinte: o que fazer para conquistar a inclusão social, já que novas forças políticas, sociais, historicamente defensoras de um país mais justo, saíram vitoriosas nas eleições de outubro passado? Acredito que, em primeiro lugar, a firme decisão de mudar, comprar a briga, não vacilar em função das grandes dificuldades que herdaram, principalmente, dos últimos oito anos do reinado do senhor Fernando Henrique. Em segundo lugar, definir uma agenda, para que o governo não venha a ser pautado pela grande mídia que, teatralmente, aparenta uma alteração editorial de acordo com as expectativas dos milhões e milhões de eleitores que optaram por novos rumos, mas que, na verdade, continuam a defender, sinuosamente, os mesmos interesses dos derrotados. Em terceiro lugar, tornar bem claro o projeto nacional, a decisão de combater as disparidades regionais, atraindo para o seu campo as amplas massas do povo brasileiro. Sem elas, conscientes e mobilizadas, não haverá mudança alguma. Inclusive, a importante e decisiva classe média, hoje alvo de disputa acirrada entre o governo e aqueles que a levaram ao pântano. Mostrar as etapas a serem vencidas, demarcar campo para com os adversários, a fim de que aqueles que ontem eram apresentados em cartazes, por setores mais organizados da sociedade, como inimigos dos interesses destas, não reapareçam como aliados ou ?companheiros?. Em quarto lugar, não ter medo de afirmar que a arapuca armada contra o governo Lula foi muito bem montada e que as dívidas interna e externa, além dos compromissos internacionais selados, principalmente pelo governo anterior, para com os agiotas do FMI e outros privados, são dramáticos, no mínimo. (*) É ADVOGADO.