Opinião
A liberdade dos juros
O Brasil definitivamente saiu da UTI e pode ter pauta coordenada de desenvolvimento econômico. As declarações otimistas são do ministro da Fazenda, Antônio Palocci, durante o anúncio da medida provisória que facilita o crédito à população de baixa renda. Convém, porém, ponderar as palavras da principal autoridade econômica do governo e examinar com mais acuidade a situação econômica do País. Tomemos, como exemplo, os investimentos estrangeiros no Brasil. Só uma parcela pequena são investimentos produtivos e de longo prazo. A grande maioria dos capitais é de curto prazo, atraídos pelos juros (um dos mais elevados do mundo). A fragilidade externa, portanto, continua inalterada e a movimentação de capitais independe de decisões internas para se manter sem turbulências. A vulnerabilidade externa brasileira não é mencionada nas manifestações públicas das autoridades econômicas do governo. Nenhuma medida que envolva controle do fluxo de capitais externos é aventada pelo governo. Muito pelo contrário, a manutenção do livre trânsito de capitais parece ter um cunho ?fortemente teológico?, para utilizar expressão do porta-voz do Fundo Monetário Internacional (FMI), Thomas Dawson, liberal avesso a instituição de qualquer controle dos fluxos de capitais. O País está se tornando prisioneiro de uma política econômica que aposta na recuperação da confiança dos investidores internacionais (queda no chamado risco-Brasil), como suficiente para a retomada dos empréstimos às empresas brasileiras e para os investimentos diretos de longo prazo. Uma medida de controle (como a adotada pela vizinha Argentina) dos fluxos de capitais é visto pelo governo como capaz de quebrar a confiança adquirida no mercado, depois de tanto esforço e concessões. Para que as coisas aconteçam como as autoridades econômicas desejam só através da providência divina tão cara aos membros do atual governo. Mas, que convenhamos, fica no terreno do imponderável. E basear-se apenas nessa fé cega no mercado, é de que o Brasil menos precisa. Mas, afinal, viva a liberdade de capitais. Proclamam eles. E nós?