Opinião
Ch�o e teto
RONALD MENDONÇA * Quando nasci, fazia seis anos que o meu avô, capitulando à pressão dos agiotas, já não era mais o dono de centenário engenho de açúcar na cidade do Pilar, herança do bisavô, o barão do Mundaú. A queda da monarquia, em 1889 e a sanha capitalista, em 1942, confiscaram-me, antes mesmo de vir ao mundo, o título de nobreza e a perspectiva de herdar uma capitania. Dessas ?perdas?, a que doeu foi quando descobri que o destino me havia subtraído o prazer de cavalgar em terras avoengas, livremente, o que dispensaria adular um e outro para ?dar uma voltinha?, nas poucas ocasiões em que passei férias em fazendas de amigos. Felizmente, esse trauma curou sem seqüelas. Aliás, mesmo que quisesse, hoje, não daria para invejar a sorte dos proprietários rurais, sobretudo daquelas terras situadas próximas às rodovias, objetos de desejo do temível MST. ?Barril de pólvora?, ?nitroglicerina pura? ou qualquer outra denominação, o fato é que as autoridades estão perdendo o controle da situação e se tornando dóceis reféns desse grupo que sonha com tudo, menos com a paz no campo. Para completar, o Incra ? segundo os jornais - resolveu apelar para a Polícia Federal com a intenção de impedir que fazendeiros ameaçados de ter os seus chãos conspurcadas possam defender-se. Ou seja, invadir terras, pode; defender-se das invasões, não pode. Por aqui, a coisa não ferveu de vez, porque as cercas dos usineiros ainda impõem respeito. Não se pode negar, no entanto, a necessidade de uma reforma agrária que contemple os camponeses de verdade. Mas, cada um com o seu pânico. Enquanto louvo aos céus por permitir a consolidação da República (em que pese a perda do baronato), hoje, como funcionário público, tremo de medo só de pensar nas reformas do companheiro Lula, no que tange à idade da aposentadoria. Aliás, em mais de um dos seus inúmeros discursos, o presidente bateu forte nos professores e consultores jurídicos que penduraram as chuteiras antes dos 50 anos, e disse não entender como uma camponesa só consegue isso após os 60, apesar de trabalhar desde os 9, 10 anos. Sabiamente, Lula evita falar nos militares que vestem o pijama contando o tempo de banca nas escolas preparatórias. Registro com tristeza que meus temores não tenham nada a ver com o teto salarial de 17 mil e caqueiradas. Babo por um salário desse e me pergunto o porquê do complô contra médicos e outros desafortunados, na hora de ?rodar? os nossos contracheques. (*) É MÉDICO E PROFESSOR