Opinião
Renascimento
MARCOS DAVI MELO * Argüido sobre o que achava do angustiante crescimento da violência no Rio de Janeiro, afirmou que o combate à criminalidade crescente e a redução dos índices de violência passariam, obrigatoriamente, pela oferta de educação e oportunidades de empregos para a população. O combate à criminalidade seria não apenas uma questão policial, mas de Estado. Não era nenhum candidato carioca usando e abusando de corroídos chavões eleitoreiros para a campanha das eleições de 2002, mas, sim, o médico e antropólogo alagoano Arthur Ramos, que residia na antiga capital da República, naquele distante ano de 1946. Ramos não se preocupou apenas com a adequada maneira de combater a florescente criminalidade (o que já seria uma bandeira inestimável), mas ocupou-se também com assuntos tão importantes e atuais como as discriminações feminina e racial, sendo que para muitos estudiosos antecipou-se a Gilberto Freire na valorização da miscigenação racial na formação do homem brasileiro. Psiquiatra e estudioso dos labirintos da intimidade do ser humano, correspondeu-se com Sigmund Freud, de quem recebeu calorosos e entusiásticos apoios as suas teorias mais originais. Publicou, ao final de sua curta vida (já que faleceu prematuramente em 1949, aos 46 anos, na cidade de Paris, onde se estabelecera a convite da Unesco, para dirigir a importante Diretoria de Ciências Sociais), mais de 400 obras, que iam da psiquiatria, antropologia, à valorização do artesanato de seu torrão natal, a nunca esquecida Pilar. Deixou um legado não só intelectual, mas de luta e engajamento às melhores causas sociais e políticas. Notabilizou-se nacionalmente e internacionalmente por uma rígida posição pacifista, voltada para o desenvolvimento harmônico das nações. Foi em ambas as esferas, o mais importante cientista social de sua época. Inevitavelmente, foi taxado de comunista. Era um humanista fervoroso. Por isto e por muito mais, o seminário ocorrido, esta semana, na Associação Comercial, comemorando o seu centenário, ?Artur Ramos e suas Idéias Vivas? é de suma importância e dos mais oportunos. Praticamente desconhecido na atualidade da maioria dos brasileiros e mesmo de seus conterrâneos, este seminário que trouxe para Maceió os maiores estudiosos de sua obra no País, mostrou que a mesma é inequivocamente atual. Este renascimento, a palavra não poderia ser outra, não foi obra fácil do acaso: um grupo de abnegados, liderados pelo presidente do Conselho Regional de Medicina, dr. Emanuel Fortes, e contando com uma ativa comissão composta entre outros por José Medeiros, Agatângelo Vasconcelos, Isaac Soares, foi o responsável pela empreitada. Pilar, na pessoa de seu alcaide, Carlos Alberto Canuto rende-lhe homenagens neste dia 7. O vigilante secretário Estadual de Cultura, Eduardo Bomfim, apoiou e pretende continuar investindo na seara de Ramos. O seminário cumpriu a sua missão e, entre as obras disponíveis, permito-me recomendar a saborosa ?Artur Ramos, Significativas Passagens?, de Dídimo Otto Kummer, digna introdução ao mundo deste alagoano atemporal e universal. (*) É MÉDICO