Opinião
Conservar sem mudar
EDUARDO BOMFIM q A denominação, mudança conservadora, tornou-se uma referência quase incontestável sob a revolução de 1930 que destronou as oligarquias rurais do poder central do País e introduziu em seu lugar o nascente extrato industrial urbano. Na verdade, foi um movimento complexo, que envolveu classes e forças sociais reprimidas que se insubordinaram contra estruturas políticas caducas, obsoletas, as quais tamponavam a necessidade da modernização do Brasil. Sabe-se, que o episódio, consagrado pela maioria dos historiadores como a nossa revolução burguesa, teve vários antecedentes, como a revolta dos tenentes em 1922 e a famosa coluna Prestes, entre outras. Aglutinou também segmentos médios e da classe operária, insatisfeitas diante da hegemonia da aristocracia rural, principalmente paulista e mineira. Época conhecida como política do ?café com leite?. Em verdade, sob a direção das forças que comandavam o capital urbano, formou-se uma ampla frente que combinava reivindicações sociais, um novo pacto jurídico, além de amplas liberdades políticas, distintas dos métodos, inclusive eleitorais, que impediam a emergência destes segmentos no cenário político. O fato é que, vitoriosa, a revolução de 1930 provocou o surgimento de um novo Brasil. O País iniciava a mudança qualitativa de sua face. Este processo foi irreversível do ponto de vista econômico, ao longo das décadas posteriores. A classe operária, e outros segmentos de trabalhadores, setores médios, a pequena burguesia, firmaram-se no cenário nacional. Os sindicatos adquiriram papel preponderante nos embates que envolveram questões sociais e a nação. As idéias anarquistas foram substituídas pela luta em defesa do socialismo e o Partido Comunista do Brasil cresce enormemente a sua influência junto as mais amplas camadas do povo. Apesar disso, o caráter burguês da revolução brasileira possuía um claro traço conservador, que a tornava incompleta, inacabada, capenga. Ela não se estendeu ao campo, permitindo a sobrevivência das caducas estruturas do latifúndio, impedindo desta maneira a imprescindível reforma agrária. Daí a denominação de mudança conservadora. Os partidos políticos e personalidades que representavam a aristocracia rural, sempre buscaram manter intocados os seus privilégios. Para tanto, as alianças em que participavam, inevitavelmente colocavam-se, sorrateiramente ou abertamente, contra os interesses das maiorias. Hoje, estas mesmas forças buscam impedir que o programa do governo de Lula venha a ser concretizado. Tratam de interferir dentro e fora do governo e inviabilizar a concretização das mudanças progressistas que o País necessita. Começamos a assistir os primeiros sinais de grandes lutas pela disputa de importantes setores da população. Assim, como em 1964, estabelecem-se esdrúxulas alianças. O objetivo é claro, conservar sem mudar. Vejamos. (q) É ADVOGADO