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�tica, prazer e sina

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RONALD MENDONÇA * Com uma freqüência indesejada, a natureza erra na mão e decide pregar uma peça no seu rebento e aí nasce um malformado. Predestinação ou sacanagem mesmo, o fato é que inúmeros defeitos podem atingir o ser humano (estamos falando de seres humanos) durante o período em que este está sendo esculpido. Mal comparando, seria como se Miguel Ângelo, na hora de delimitar as orelhas de Davi, imprimisse mais força no martelo do que a necessária e as amputasse. É claro que obra-de-arte alguma pode ser cotejada com o ?espetáculo? da reprodução. Aliás, quando se tenta traçar um paralelo entre natureza e arte é que se percebe que enquanto a primeira tem regras mais ou menos rígidas e não aprecia mudanças bruscas, a segunda é caprichosa, simbólica e anárquica. Imagine o que seria de uma criança que nascesse com um olho no lugar do seio, ou de alguém que tivesse a boca entre as coxas, como sugerem algumas produções de Picasso? Vertentes religiosas apregoam que os defeitos de nascença seriam conseqüências de dívidas contraídas em vidas passadas, que estariam sendo pagas com a dor da deformidade. Já a medicina defende que fatores genéticos (hereditariedade) ou agentes externos ? infecções, medicamentos, irradiações e outros ?, atuando durante os primeiros meses da gestação, seriam os verdadeiros vilões. Um exemplo que ninguém deve esquecer é o da malsinada talidomida, medicamento com um potencial enorme de causar malformações, largamente usado nos anos 50-60, para combater justamente as náuseas da gravidez ! Azar, sina ou castigo, a realidade é que não deve ser fácil carregar o ônus, desde o berço, de um defeito físico ou mental para o resto da vida. Os famosos gêmeos siameses do século 19, cuja anomalia leva o nome do país de origem - o antigo Sião, tiveram relativas vidas longas (63 anos) e, dentro do possível, normais. Casaram e procriaram. A mesma sorte não tiveram as irmãs iranianas que até o início dessa semana repartiam o mesmo crânio, apesar de cérebros individualizados. Inteligentes e cultas, as valentes gêmeas optaram por uma cirurgia de altíssimo risco ? e custo, por sinal desaconselhada pelos mais conceituados neurocirurgiões do mundo. O resultado funesto provou que a técnica não está completamente dominada e que, portanto, o procedimento é eticamente condenável. Em Quito, duas jovens universitárias até certo ponto resignadas com a asa do quadril e o fígado que dividem desde o nascimento resolveram, como forma de sobrevivência, abraçar a mais antiga das profissões. Segundo as belas estudantes de enfermagem, depois de discriminadas como escriturárias e outras ocupações, hoje sentem-se plenamente realizadas com a prostituição, que garante companhia, pão, curso superior. O detalhe é que, ao contrário das próprias expectativas, os clientes chovem, apesar do preço algo mais salgado. (*) É MÉDICO E PROFESSOR DA UFAL

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