Opinião
Cena portenha
MARCOS DAVI MELO q Recém-chegados à noite fria de Buenos Aires e após circular pelo centro, o pequeno grupo de alagoanos recolheu-se ao aconchego morno da praça de alimentação das Galerias Pacífico para uma refeição ligeira. No pequeno palco uma sofrível imitação dos Beatles esgrimia suas velhas canções. Alimentados, vestiram os casacos e prepararam-se para retornar ao hotel. Cansados e descontraídos, deixaram os restos nas mesas. Logo, um respeitável senhor grisalho, muito bem vestido, retirou o sobretudo, que revelava um elegante terno escuro com gravata e sentou-se à mesa, apoderou-se dos despojos e tranqüilamente os consumiu, enquanto acompanhava os músicos cantarolando ?Dont Let Me Down?. No último dia da curta estadia na capital portenha, um sábado, um deles, com a mulher e a filha dirigiu-se a calle Florida, para algumas pequenas compras femininas. Desejoso de aproveitar os últimos momentos, ele saiu à procura de um bom câmbio para trocar alguns dólares para as últimas despesas e comprar alguns discos de tango. Desprezou as primeiras opções, onde pagavam em média 2,71 pesos por dólar. Continuou em direção à Corrientes, onde logo após a esquina, um cidadão muito bem vestido e apessoado ofereceu-lhe 2,90 pesos por dólar. Relaxado, deu-lhe os 100 dólares e recebeu os 300 pesos, logo passando os 10 pesos de troco. O argentino quis 50 e o negócio foi desfeito na hora. Destrocaram os dinheiros imediatamente. A operação levou frações de minutos. Depois, entrou na primeira casa de câmbio onde constatou que os seus 100 dólares eram falsos. Bestamente, caíra no velho e manjado golpe. Dera dinheiro bom e recebera em retorno, imitação. Desconsolado, sentindo-se o pior dos idiotas, procurou a Comissaria de Polícia regional. Sentia-se tão mal que mesmo tendo marcado hora para encontrar a família e tendo poucas disponíveis, enfrentou a Comissaria, onde após um tempo que pareceu-lhe uma eternidade, saiu com um patrulheiro à improvável procura do marginal. Bateram as ruas para lá e para cá e já desistiam, quando o policial afirmando ter visto algo, entrou em uma lanchonete decadente e demorou-se longo tempo nos toaletes, de onde retornou acompanhado do larápio. Na Comissaria de Polícia, muitos pedidos de desculpas e a devolução da plata. Em nenhum momento, houve violência. Os argentinos perderam muito de sua arrogância. Embora a cultura do dólar ainda impere, deixam transparecer que os hermanos precisam se ajudar para sair do buraco. São hoje mais realistas, conscientes e aparentemente mais solidários. Menos europeus e mais sul-americanos. À noite, após jantar no Brocolino e do tango no Viejo Almacen, a sensação de que Buenos Aires continua agradável, com bons serviços, ótimos vinhos, custos aceitáveis, aquele sabor nostálgico de quem busca se reencontrar e intrinsecamente melancólico do tango, que continua a embalar a fria noite portenha. (*) É MÉDICO