Opinião
O sagrado e o homem
DOM FERNANDO IÓRIO * Para a fé não deixa de ser fundamental à reflexão sobre a imagem que temos de Deus e a tentativa de superar as etapas infantis, instintivas ou, pelo menos, inconscientes, de uma religiosidade natural e espontânea. A partir desse momento, inicia-se o caminho a procura da autêntica imagem do Deus vivo e verdadeiro, o Deus-Pai, revelado por Jesus Cristo. Fascinante campo, por demais, amplo e atrativo no qual se dão as mãos a Psicologia e a Antropologia, o sentimento e a fé, o humano e o divino. Estamos diante da possibilidade natural de o ser humano entrar em contato com o último porquê de sua existência. Em se tratando da Filosofia da Religião, a possibilidade de se ?penetrar na esfera do absoluto?, conforme Max Scheler. Pensam outros, como Rudolf Otto, na disposição natural que põe o homem em contato com o Sagrado, o Santo, o Absoluto, o Tremendo e o Fascinante. Para a Psicologia da Religião é evidente essa inata tendência do ser humano na participação transcendente do Eterno. Para S. Freud (1856-1939), a religiosidade natural não é mais do que um sinal coletivo de tipo neurótico. Para ele, a fé em Deus, que é a conseqüência dessa disposição religiosa natural, não é mais do que a sublimação, já fixada, do sentimento de insegurança ou complexo de inferioridade da infância. Deus seria a projeção engrandecida do pai. Para Jung (1875-1961), a ?disposição religiosa natural pertence à plenitude da psicologia humana?. Chegou Jung a afirmar que ?entre todos os seus pacientes que já haviam passado da metade da vida, não tinha encontrado um sequer, cujo problema definitivo não fosse o de sua atitude religiosa?. ?Ninguém ? acrescentava ele, pode curar-se, psicologicamente, sem ter encontrado sua posição religiosa, numa ou noutra confissão?. Não se deveria, portanto, falar somente de ?repressão sexual?, como sugeriu Freud e Marcuse, senão também de autêntica ?repressão religiosa?, causadora de desvios psicossomáticos, como ensina Lopez Ibor. Carlos Gustavo Jung abalou as formas de piedade cristã, quando descobriu uma profunda correspondência entre as práticas sacramentais, mormente a confissão e a disposição religiosa natural do ser humano. Não deixa de ser proveitosa essa visão positiva da Psicologia Profunda com respeito à religiosidade popular e às formas de piedade, como funções psicológicas equilibradas do indivíduo. Daí ser proveitoso ministros religiosos, mormente confessores, trabalharem de mãos dadas com psicólogos e psiquiatras. Jung chegou a concluir: ?o dogma como verdade psíquica de primeira grandeza, só pode ser depreciado pelos inexperientes, mas, nunca pelos autênticos psicólogos?. (*) É BISPO DE PALMEIRA DOS ÍNDIOS