Opinião
Consumo cr�tico
DOM EDVALDO G. AMARAL * Nos tempos da Guerra Fria, falava-se muito na divisão do mundo em dois blocos: Leste e Oeste. O Leste seriam a URSS e a China, com os povos do bloco soviético e os países que viviam na órbita da União Soviética, como Cuba, Angola e outros. Mas já naqueles tempos, líderes de visão internacional e, entre esses, quero destacar o nosso dom Hélder Câmara, já chamavam a atenção de que a verdadeira divisão do Mundo, inconciliável, cada vez mais aprofundada, era Norte e Sul. O Hemisfério Norte, rico, industrializado, e o Sul, sempre mais empobrecido, mero fornecedor de matéria-prima e mão-de-obra barata, miserável e faminto. A linha que passa no Trópico de Câncer divide o mundo, de maneira inexorável, entre países ricos cada vez mais ricos e países pobres, cada vez mais pobres, com uma única exceção, a Austrália, desenvolvida com a riqueza de seus imigrantes ingleses e de outros povos. Segundo dados oficiais, vivem no Norte 23% da população mundial que, para manter seu estilo de vida, consomem 80% dos recursos mundiais. Para o resto da popu-lação do globo, isto é, para 77%, restam 20% dos recursos naturais do planeta. São os que vivem em absoluta pobreza. Para que toda a população do globo tivesse o padrão de vida dos países ricos, por exemplo, automóvel, computador, calefação, ar-condicionado, etc., seria preciso ? dizem os especialistas - seis planetas do tamanho da Terra, com recursos para todos, distribuídos eqüitativamente. Daí surgiu na Itália ? ao menos foi numa revista italiana que li ? um movimento denominado ?Consumo Crítico?, que prega um estilo de vida, cujo consumo saiba distinguir entre as necessidades reais e as fictícias, impostas pelos monstros do consumismo e da publicidade. Isto não significa voltar à luz das velas ou lavar a roupa no riacho vizinho ? se bem que muitas populações da África ainda o façam hoje. O movimento baseia-se no espírito cristão da sobriedade, que leva a convivência humana a viver quatro imperativos, todos em ?erre?, isto é, Respeitar, Reduzir, Recuperar e Reparar. Por isso, chama-se ?Movimento dos Quatro Erres?. Respeitar é a base dessa escola de pensamento, que ensina o respeito à natureza, aos recursos hídricos e alimentares do planeta, o respeito às pessoas e ao trabalho de todos os homens (o da mulher, do negro, do imigrante), o respeito à terra e aos povos que a ocuparam há milênios, antes que chegassem os conquistadores, com suas armas do progresso e da violência. Reduzir significa deixar o supérfluo para os que não têm o necessário. Entra aqui o verdadeiro espírito cristão de saber compartilhar o muito que se tem com os que nada têm. Recuperar significa evitar o desperdício. A quantidade de alimentos que se perde diariamente nos centros de abastecimento (Ceasa e similares) das grandes cidades brasileiras daria para matar a fome de muita gente. Já foi feita uma curiosa pesquisa nos sacos de lixo de Brasília, de seus conjuntos habitacionais, e resultou impressionante quantidade de bons alimentos enlatados e objetos de uso em bom estado, que são atirados aos urubus ou disputados pelos miseráveis no Lixão. Reparar é rever e sanar as injustiças cometidas em séculos, contra os índios, os escravos, os sem-terra e, no âmbito das relações internacionais, com os povos explorados pelas nações chamadas colonizadoras, sobretudo, na África e no Sudeste asiático. Com esses quatro ?erres?, implementados e vividos, pelas pessoas e pelos países do chamado 1° Mundo e sobretudo, os do G-7, grupo dos sete mais ricos, mudaria sensivelmente o panorama do pavoroso desnível entre o Norte dos ricos e o Sul dos pobres. * É ARCEBISPO EMÉRITO DE MACEIÓ, ORA EM VISITA MISSIONÁRIA NO JAPÃO