ARTIGO
O obrigado de Rafael
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O obrigado de Rafael
Quando parei com o carro na frente da casa de uma paroquiana, bate no vidro um jovem pedindo ajuda. Desci então e comecei a conversar com ele. Como estava sem nenhuma refeição naquele dia, resolvi levá-lo a um restaurante ali próximo para providenciar um almoço reforçado e assim alimentá-lo bem.
Logo percebi que era dado ao álcool e comecei a questionar sobre o uso de entorpecentes, o que me foi respondido com negativas. Após comprar a refeição, perguntei se ele queria ajuda, pois nosso Estado possui várias Comunidades Terapêuticas e ele poderia então passar um tempo em alguma delas. Ele respondeu que sim. Liguei para a Rede Acolhe e então apresentaram-me a necessidade de haver uma documentação mínima para fazer a internação.
O problema era que aquele jovem Rafael tinha sido roubado e não havia consigo nenhuma identificação. Liguei novamente e disseram que tentasse ver com o Centro POP que cuida de pessoas em situação de rua, para que providenciassem uma declaração e assim o encaminhassem. Estando no Inocoop, parte alta de Maceió, sabia que correr atrás de tudo isso levaria um tempo, pois era necessário ir ao centro e esperar todo o processo. Foi quando questionei Rafael se realmente ele queria essa ajuda, pois não adiantara nada irmos se ele desistisse logo. Com a afirmativa recebida, coloquei-o no carro e assim fomos.
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Talvez o leitor pense que não fui muito prudente em fazer isso, pois não conhecia aquela pessoa e ir com ele no carro não fosse o mais sensato, mas desta vez meu pai estava em casa e fomos juntos. Contudo digo que já fui várias vezes às Comunidades sozinho com dependentes químicos. Assumi várias vezes o risco, pois sempre pensei que se um dia me ferissem ou chegassem a algo mais grave, eu morreria fazendo o bem. Isso me seria contado diante de Deus! Então, revisto-me da proteção divina e me lanço acreditando que aquilo é o melhor a ser feito. Por conta disso, muitos já foram ajudados. No carro Rafael começou a me contar as verdades.
Era adicto e não de Pernambuco, mas da Bahia. Percebi que o gesto de colocá-lo no veículo e ir buscar ajuda deu-lhe confiança em mim. E então foi me contando toda a sua história de vida. No Centro POP muito pouco pôde ser feito pois ele nunca havia passado por ali. Fui então na Sede da Rede Acolhe e depois de um certo tempo me informaram que sem documentação não seria possível fazer nada. Já quase sem esperanças, eis que Rafael de repente me fita o olhar e diz: “obrigado Padre”. Eu prontamente respondi: “de nada, filho”, mas percebi que ele estava comovido com tudo aquilo. E mais uma vez me disse: obrigado Padre por tudo, por querer tanto me ajudar. Confesso que foi um momento de profunda reflexão. Rafael entendia o esforço que estava sendo feito e tentou expressar sua gratidão.
Ali enchi-me de alegria, pois via que o Espírito de Deus estava agindo…. Sem ter possibilidades de avançar naquele percurso, resolvi ligar diretamente para a Comunidade Nova Jericó e perguntar se havia vaga. Havia somente uma. Expliquei a situação dizendo que Rafael sabia o cartório onde tem sua certidão de nascimento e que fazendo um contato, poderia se pedir uma segunda via, para tirar então novamente sua documentação. Daria um pouco de trabalho, mas era possível de ser feito.
Diante do exposto, disseram que poderiam acolhê-lo. Então lá fomos nós, à cidade de Marechal Deodoro deixar Rafael. Em determinados instantes pensei que não conseguiria ajudá-lo, mas ao final de tudo, deu certo. Ao deixá-lo, com uma largo sorriso me agradeceu novamente e assim o vi entrar para um início de uma nova vida. Hoje sou eu quem digo: obrigado Rafael. Contigo pude ser cristão e praticar uma obra de misericórdia. Contigo eu pude ser mais de Deus. Obrigado.