Opinião
Homem de f�
RONALD MENDONÇA * Um dia dos idos de 50 chega ao Mutange um olheiro informal do CSA trazendo um jovem alto e magro para apresentar ao doutor Alfredo Ramiro Bastos, dublê de médico e técnico. O atleta, goleiro do Santanense, se não me engano, estava sendo aguardado com certa ansiedade porque o titular do Azulão, o festejado Carijó, era carta fora do baralho. No treino, o atleta confirmaria as qualidades. De fato, estava ali uma réplica de Castilho, na época o melhor do Brasil. Surpreendendo a todos, o técnico desaconselhou sua contratação. É que o olheiro, num ataque de ética, confidenciara que o único problema do rapaz era não ter sorte. Ficou célebre a sentença do doutor Alfredo: ?Goleiro e cirurgião podem ser tudo, menos azarados?. Um fato recente que não tem nada a ver com a história do goleiro azarado, mas que também surpreendeu a todos foi o destempero verbal do ministro da Justiça e do Trabalho do Paraguai, José Burró. (Não é de hoje que as autoridades brasileiras vêm reclamando da promiscuidade fiscal e criminal paraguaia em relação aos contrabandos - inclusive de armas, roubos de carro e mil outras contravenções). Cansado de levar pancada e sem forças para enfrentar o problema do seu país, Burró partiu para o ataque chamando brasileiros e argentinos de sem-vergonha, mostrando-se céptico quanto à possibilidade de se encontrar um brasileiro honesto. Finalmente, numa alusão pouco sutil, o ministro recomendou que cuidássemos de nossas mulheres. Nem Jeová foi tão cruel quando se referiu a Sodoma e Gamorra... Como brasileiro, fiquei entalado com as declarações desse senhor. Por um instante cheguei a pensar que o espírito de Solano Lopez havia baixado no malcriado Burró e uma Nova Tríplice Aliança já se fazia por merecer para pôr o insolente no seu devido lugar. Depois, pensando melhor, vi que apesar de muitas das enxaquecas alcoólicas serem causadas pelos uísques paraguaios, somos nós que os importamos. Se os automóveis roubados são regularizados lá, eles são levados por quadrilhas tupiniquins, assim como as armas compradas pelo narcotráfico - que é tão nosso quanto o samba e o futebol. Embora sem ilusões acerca do caráter dos patrícios, discordo um pouco do paraguaio porque ainda há figuras públicas que se postam na contramão da sem-vergonhice reinante. Uma delas está entre nós e responde pelo nome de Lourival Nunes da Costa. Provedor da Santa Casa de Maceió, durante 12 anos, o manso professor Lourival acaba de despedir-se - justo numa hora em que todos queriam que ficasse. ?Unanimidade nacional?, Lourival é um exemplo de equilíbrio aliado à franciscana humildade, raras qualidades na massificante roda da vida dos atuais tempos. O apogeu vivido pela Santa Casa é seu maior diploma de administrador competente e sortudo. E sua família o espelho da sua bonomia. (*) É MÉDICO E PROFESSOR DA UFAL