Opinião
Perigos globalizados
Teimando em permanecer no noticiário, o affair Estados Unidos x Iraque segue espalhando preocupações e reflexões para o mundo. A primeira e mais importante delas deveria gerar a óbvia compreensão de que a força ? pura e simples ? não tem caráter transformador nem educador e muito menos é critério de justiça. Maior potência do mundo contemporâneo, suprema em termos de armas e domínio da economia global, os Estados Unidos da América confrontam-se com desafios superiores à sua envergadura histórica. E isso não é bom para o mundo. Melhor seria que os erros, o sangue derramado, se não indicassem o caminho certo, pelo menos assinalassem as veredas equivocadas. Mas isso parece não ter acontecido, nem há indícios de que esteja acontecendo. A eliminação de Saddam Hussein de seu grupo político e do governo iraquiano não resolveu nenhum dos problemas apresentados como justificativa para a gigantesca ação militar. Essa é uma realidade indiscutível. Ditadura sanguinária por ditadura sanguinária, o Iraque ficou na mesma. Saiu Saddam e os seus, entraram os americanos e os seus; e os iraquianos e iraquianas continuam ?na sua? ? seguem debaixo de pau, vertendo sangue diuturnamente. O mundo não ficou mais seguro pós-Saddam e o terrorismo recrudesceu, espalhando-se mais pelo mundo (vide o atentado de ontem, explodindo um hotel da rede norte-americana Marriott na cidade de Jacarta, capital da Indonésia, deixando ? segundo a Cruz Vermelha ? ao menos 13 mortos e 149 feridos). As conseqüências dessa realidade cristalina não são animadoras. Nenhuma declaração aponta para investimentos globais no sentido da diminuição das desigualdades internacionais e entre regiões, nenhuma fala é inovadora em termos de paz e a cantilena baseada no ódio e no ?direito à supremacia? continuam na ordem do dia ? como no conflito entre Israel e Palestina (que há meio século não consegue consolidar outra vertente que não seja a do sangue). Até quando a população civil, a paz e a democracia continuarão sendo as permanentes vítimas das guerras?