Opinião
Um artista brasileiro
LUIZ GONZAGA BARROSO FILHO * O ano do centenário de nascimento do compositor Ary Barroso está passando praticamente despercebido pelo grande público que não conhece a obra grandiosa nem a vida fascinante do autor de ?Aquarela do Brasil?, patrimônio da nossa canção popular, reconhecido internacionalmente e um defensor ardoroso da arte musical brasileira. Apesar do estardalhaço oficial de que 2003 seria dedicado ao responsável por clássicos como ?No Rancho Fundo?, ?Os Quindins de Iaiá?, ?Inquietação?, ??Na Baixa do Sapateiro?, ?Faceira?, ?Grau Dez?, ?Camisa Amarela?, ?Pra Machucar Meu Coração?, ?Risque?, ?Folha Morta??, ?É Luxo Só? e outros tantos, até agora, as homenagens prometidas não estão sendo feitas à altura do extraordinário artista, que se notabilizou pela brasilidade demonstrada nas suas composições, atualmente pouco divulgadas. Enquanto isso, os destaques musicais do ano, nas programações do rádio e da TV, têm sido algumas peças de baixa qualidade, a exemplo da medíocre ?Egüinha Pocotó?, além de uma enxurrada de ?bate-estacas? importados (música eletrônica) sem nenhum valor artístico. Lamenta-se que o Brasil, com uma riqueza de gênero e de ritmos dificilmente superada por outro país, permaneça aceitando e copiando os ?subprodutos? vindos de fora, e que a voracidade dos que visam apenas o lado comercial, sem nenhum compromisso com os valores legítimos da nossa música, esteja contribuindo para que nos tronemos um povo sem identidade cultural. A esse respeito, hoje, no programa de calouros de maior audiência da nossa televisão, os candidatos apresentam um repertório composto de cerca de 80 por cento de composições estrangeiras, situação diferente da época dos programas auditório das rádios, nos anos 30 e anos 50, que promoviam concursos de calouros, com os do Ary Barroso, nos quais ele exigia que os participantes cantassem somente músicas brasileiras e anunciassem corretamente o nome dos autores. Seus programas foram responsáveis pelo lançamento de vários artistas que fazem parte da história do nosso cancioneiro popular. Esse expoente da música brasileira, que compôs para o teatro e para o cinema, teve sua música intitulada ?Rio de Janeiro? indicada para o Oscar (prêmio da Academia de Cinema dos Estados Unidos), em 1944, quando recusou o convite de produtores cinematográficos, para trabalhar naquele país, mediante contrato milionário, preferindo permanecer no Brasil. Portanto, o maior tributo que poderá ser prestado ao genial artista, será o desenvolvimento de um trabalho de valorização da autêntica música popular brasileira, combatendo o consumo excessivo de entulhos alienígenas, tendo, para isso, como ponto de partida, a implementação de ações educativas dirigidas principalmente aos jovens. Iniciativa nesse sentido, contando com o patrocínio do Ministério da Cultura, por intermédio do seu titular Gilberto Gil, compositor de reconhecido talento, que, nos anos 60 e 70, participou ativamente de um movimento musical importante chamado Tropicalismo, certamente despertará o interesse do brasileiro pela sua música, conhecendo-a melhor, para poder reagir às influências nefastas, como fez o mestre Ary Barroso na sua época. (*) É ADVOGADO E MEMBRO DA COMISSÃO ALAGOANA DE FOLCLORE