Opinião
Imagens distorcidas
JOSÉ MEDEIROS * Uma imagem negativa do que acontece em nosso Estado e foi construída ao longo do tempo é mantida pelo noticiário de fatos atuais. Essas incompreensões vêm de muito longe. Sobre isso conto uma história antiga. Há 40 anos, o alagoano era tido lá fora, com o sinônimo de cangaceiro, de homem com a peixeira na mão, pistoleiro de tocaia atrás da árvore esperando a vítima. Recém-formado, fiz um estágio no ?Conjunto Sanatorial de Curicica, Hospital-Escola, em Jacarepaguá, no Rio de Janeiro. Bem recebido, bem tratado, muitas gentilezas e tal. Entretanto, colegas brincalhões resolveram pregar uma peças no recém-chegado. Convenceram um psiquiatra do hospital que eu não simpatizava com ele, que havia trazido de Alagoas uma faca-peixeira e estava disposto a dar-lhe umas peixeiradas. Quem poderia acreditar numa coisa dessas? O colega, por incrível que pareça, acreditou nessa infantilidade. Esse gracejo rolou muito tempo no hospital. Quando tive conhecimento da confusão procurei o desavisado colega ? que me evitava a todo custo, julgando-se ameaçado de morte ? para convencê-lo de que se tratava de uma grande pilhéria, uma brincadeira de mau gosto. Quem me ajudou nesse curioso trabalho de convencimento foi o médico recém-formado Almir Gabriel, que estagiava na cirurgia torácica e pulmonar. Posteriormente, Almir tornou-se político conhecido; ao reencontrá-lo era senador da República, e, depois, governador do Estado do Pará. Nós gastamos muita saliva para provar a inverdade do que se dizia, que eu era o homem da peixeira e do trabuco, disposto a uma desforra, por não ter gostado de cara do veterano especialista na Psiquiatria. Apesar da mídia, do fabuloso mundo da comunicação, há muita gente no Sul e no Sudeste que não tem conhecimento do que se passa no Nordeste. Ou o que é pior, tem informações desvirtuadas sobre a região. Recentemente, um colega médico, de Minas Gerais, ficou encantado com a beleza e a cultura de Alagoas. O encantamento ultrapassou todas suas expectativas. Conhecia o Sul, mas não conhecia os estados nordestinos. Demorou-se duas semanas em Maceió. Depois de ir às piscinas naturais, às praias do Francês, da Barra de São Miguel e de Maragogi, quis apreciar o lado cultural da cidade. Foi aos museus, igrejas e ao Instituto Histórico, a fim de conhecer um pouco de nossa história. E aí perguntou: e os passeios ecológicos, as trilhas ecológicas? Quais os melhores hotéis-fazenda? Toquei o telefone para obter essas informações. Um centenário dele me chamou atenção. No seu entendimento falta em alguns setores uma bem formada ?mentalidade turística?: taxistas e restaurantes exageram nos preços cobrados aos visitantes e certas pessoas nem sempre estão dispostas a dar informações solicitadas. Salientava tudo isso como exceção, pois tinha sido bem acolhido e estava admirado com a terra alagoana. Para expandir o turismo é necessário maior participação da população, integrada com o uma comunidade. E concluiu: Alagoas tem muito do necessário para tornar-se um grande centro turístico. A luta por uma imagem positiva lá fora deve ser preocupação constante dos alagoanos. (*) É MÉDICO E EX-SECRETÁRIO DE EDUCAÇÃO E DE SAÚDE