Opinião
A 25� hora
EDUARDO BOMFIM * Persistem os elementos que caracterizam os conflitos que envolvem o governo do presidente Lula. A luta da reforma da Previdência ganha espaços na grande mídia nacional. A direita faz o que pode, com este mote, visando desgastar o campo nacional, democrático e desenvolvimentista. No entanto, a questão central que move os caminhos de uma crise que se evidencia, podendo desencadear um impasse de várias faces, é outro bem mais complexo e exigirá soluções mais difíceis, ou talvez, mais dramáticas, cujo epicentro é a centralidade da questão nacional. Este é seguramente o ponto nevrálgico no Brasil de hoje, a integridade da soberania do País. Dela interliga-se a luta social, a geração de empregos, o desenvolvimento econômico associado à inclusão social, a formação de um bloco independente de países em desenvolvimento, como a África do Sul, Índia, China etc. A consolidação do Mercosul, como contraponto aos interesses imperialistas dos EUA, através da ALCA, também é uma resultante do êxito desta política de resistência, em um mundo sob a brutal hegemonia da maior força de subjugação dos povos já constituída em todos os tempos. A Pax Americana e seus lacaios, a exemplo do o governo britânico e outros menos votados. O governo Lula enfrenta um quadro intensamente complexo, pois no seio do Partido dos Trabalhadores aflora uma exacerbada disputa teórica e ideológica. Tendências de orientações contrárias ao entendimento de que a grande maioria das lutas emancipacionistas passa pela conformação de um largo espectro de forças, onde nacionalistas, comunistas e outros segmentos democráticos e progressistas buscam conduzir o processo de autonomia nacional, com as variações das particularidades de cada país e contextos históricos distintos. Essas tendências travam uma batalha de cunho reducionista, creio eu, onde as tarefas do atual governo possuem como fronteira a contenda do capital versus o trabalho, em primeira e única instância, muito embora não explicitem abertamente tal concepção. Nem essa é a tática acertada, muito menos o caráter do governo atual possui tal magnitude. O caminho que pode ser considerado correto é outro. Visa a acumulação de forças, com o olhar para o horizonte, para o futuro. De outro lado, este mesmo governo, ninguém ignora, possui internamente um largo espectro de forças sociais e classes distintas, construído ainda durante o processo eleitoral e que possibilitou a sua vitória. Neste quesito, o PCdoB, jogou um grande papel, visto que sempre foi um defensor de uma ampla frente, como a única maneira de derrotar a reação interna, os neoliberais nativos e o capital financeiro internacional, dirigido, principalmente, pelo imperialismo norte-americano. Surge aí, no conflito de diferentes interesses na base governista a dualidade que se expressa objetivamente nos constantes embates dentro do próprio governo, mais precisamente em relação à orientação econômica a ser adotada. É aqui que reside o centro da crise, cujo agravamento assistimos. O País praticamente paralisado em setores fundamentais, nos rumos da economia, além da ausência de um concreto projeto de desenvolvimento nacional soberano. Tenho a impressão que o tempo vai se esgotando rapidamente. Ou o governo assume atitudes de enfrentamento para com as exigências draconianas do FMI ou caminhará mais inexoravelmente do que lentamente, para algo como uma sinuca de bico. Aproxima-se a decisiva 25ª hora. (*) É ADVOGADO