Opinião
Linguagem da vida
JOSÉ MEDEIROS * Uma poesia de Mário Quintana expressa as dificuldades que temos de compreender mensagens contidas em leituras que fazemos ou de comunicações que recebemos. Versos do poeta dizem isso: ?A gente pensa uma coisa, / acaba escrevendo outra e o leitor entende uma terceira coisa... e, / enquanto se passa tudo isso, / a coisa propriamente dita / começa a desconfiar que não foi / propriamente dita?. Por vezes, é difícil entender mensagens inseridas na poesia ou na prosa. De igual maneira, nem sempre entendemos a linguagem da vida. E é fácil explicar: quase sempre, vivemos em situações-limite da fronteira de nossas forças e do desempenho mental. O prolongamento da jornada de trabalho é um bom exemplo. Geralmente, as pessoas trabalham oito horas por dia, chegam em casa, sentam-se diante do computador, lêem os e-mails, respondem, navegam na Internet e aí acrescentam duas ou três horas a mais de atividade. Praticam um lazer? Ensaiam momentos de descontração, através dos quais repõem o combustível da célula nervosa? Ao que parece, perdemos o comando do tempo. Humanização da vida é um tema sempre em pauta. Humanização no trabalho, sempre estressante, humanização na família e no meio em que se vive. Volta-se da lida diária, nem se descansa, e lá vem bomba. Os problemas caseiros são atirados no colo de quem chega, sem mais delongas. Por vezes, a clássica pergunta: tenho duas notícias, uma boa e outra ruim, qual das duas você quer primeiro? ? É sempre bom ouvir primeiro a ruim para tentar depois compensar o desgaste ocorrido recebendo uma notícia melhor. Se bem que, o momento de más notícias não é quando se chega da rua, de sangue quente, irritado pelo trânsito e problemas acumulados. Nesses casos, vale a pena, em primeiro lugar, conversar banalidades que possibilitem relaxar um pouco. E o lazer? Há os que escolhem o lazer errado. Prefira um filme de comédia, de romance, como distração. Puxa! Alguns escolhem filme de terror. Ficam diante do televisor, suando frio, extremidades geladas, acompanhando lances que enervam e chocam. Depois vem a insônia, noite maldormida, com indisposição certa no dia seguinte. Acúmulo de desgastes evitáveis. Valeu o lazer? Quando estudante de Medicina havia um colega de pensão que estudava matemática, e, num hábito singular, utilizava o sono para resolver teoremas e equações. Antes de dormir fixava o pensamento numa determinada questão. Dormia com aquilo na cabeça. Ao acordar já tinha encontrado a solução do problema. Caso resolvido, talvez, mas ficaram sem repouso suas células nervosas, os neurônios, maquininhas de seu equilíbrio mental. Na sala de aula teve um ?branco?, esqueceu tudo, necessitou ser socorrido por um neurologista. Vivem-se canseiras exageradas como se a vida humana fosse eterna, como se esses desgastes pudessem ser compensados no futuro. Quem sabe do futuro? O período existencial passa rápido. Quando menos se espera você olha no espelho e fica assombrado: as linhas do rosto engelhadas, a face cheia de rugas. Então, você pensa: será que eu entendi a linguagem da vida? (*) É MÉDICO E EX-SECRETÁRIO DE EDUCAÇÃO E DE SAÚDE