loading-icon
MIX 98.3
NO AR | MACEIÓ

Mix FM

98.3
quinta-feira, 06/08/2026 | Ano | Nº 6283
Maceió, AL
24° Tempo
Logo Gazeta de Alagoas Logo Gazeta de Alagoas
Home > Opinião

Opinião

A nudez da morte

Ouvir
Compartilhar

RONALD MENDONÇA * A ética recomenda não falar mal de quem morreu pelo simples motivo de o injuriado não ter como se defender. Infelizmente, esse preceito moral - como tantos outros - está na lata do lixo. Vivos ou mortos, estamos sujeitos à sanha da maledicência que nos estraga não só a biografia mas o próprio DNA, causando riscos aos descendentes. Na verdade, do comentário mal nem Cristo escapou. Ainda assim, especialistas do ramo insistem em afirmar que nos velórios é pouco polido relembrar os aspectos negativos dos que partem. No máximo, se um detalhe do caráter do falecido foi tão marcante que impossibilite esquecer, ser condescendente com os fatos. Seria o caso de recordar histórias, emprestando alguma pitada de humor, como aquela em que o sujeito - um avarento doentio - depois de não conseguir receber o aluguel de um casebre, teve a cara-de-pau de levar, como parte do pagamento, o cachorrinho de estimação do devedor. Um velório pode abrigar desagradáveis ocorrências, algumas, verdadeiras bombas que lambem o trágico e/ou o cômico. O folclore da província registra cenas de pugilato à beira de covas por conta de disputas por heranças que vão de usinas a casais de periquitos. Tampouco chega a ser raridade o pau cantar na presença muda de defuntos acima de qualquer suspeita, pela invasão inimaginável de outra ou outras mulheres carregadas de filhos oriundos de ligações nunca dantes presumidas. Ainda garotão, participei da sentinela de M., recatada ?moça velha? do bairro. De uma conduta irrepreensível, era uma típica boa samaritana. Sexagenária, a doce criatura teve uma doença incomum que aos poucos foi lhe consumindo gorduras e carnes - antes graciosamente bem distribuídas, sem contudo tirar-lhe a alegria de servir. Funcionária ligada aos escalões mais altos do poder, ninguém estranhou quando o balofo ex-prefeito compareceu à cerimônia fúnebre. Uma romaria de políticos por ali já havia passado. O que não se esperava é que o sisudo protestante se esvaísse em lágrimas debruçado sobre o corpo imóvel. De repente, o sujeito soltou um grito esquisito e desabou fulminado por um derrame cerebral. Na queda, seu corpo desgovernado derrubou a defunta e despedaçou o caixão. Passado o corre-corre, descobriu-se que M. mantivera, durante anos, sigiloso e tórrido caso com o ex-prefeito, cuja verdadeira imagem estava longe daquela de bom moço que sua assessoria alardeava. Naquela longa noite, cacos de reputação voaram para todos os lados. (*) É MÉDICO E PROFESSOR DA UFAL

Relacionadas