Opinião
Alv�ssaras do terror
Que lições brotarão do sangue do diplomata brasileiro Sérgio Vieira de Mello? Imolado no altar da crença guerreira, esse cidadão de 55 anos estava em pleno crescimento de sua carreira brilhante, e representava, em Bagdá, o secretário geral da ONU, Kofi Anan. Incompetente para assegurar a paz no Oriente Médio, servil às potências bem armadas, a ONU comprova sua impotência em garantir um mínimo de segurança a seus quadros, confirmando a ausência de interlocutores aptos a enfrentar esse momento de grave belicosidade. Esse atentado produz mais vítimas, além dos seres humanos atingidos pela explosão. Ele estraçalha ainda mais o débil organismo que deveria lutar pela paz. Quando são trucidados os que se propõem a correr riscos persistindo no caminho da paz, essa via é estremecida, os arautos da violência crescem em sua mensagem, ocupam novos espaços. Antes do atentado cometido contra a sede da ONU, um jornalista foi friamente fuzilado pelos americanos quando filmava um atentado (bastante suspeito) feito contra uma prisão onde se encontravam detidas pessoas acusadas de ligação com o ex-presidente Saddan Hussein. A ridícula desculpa é de que os soldados ianques confundiram a câmara de filmagem com um lança-mísseis. É assustadora a escalada de violência no Iraque pós-Saddan. Não se realizaram as prometidas soluções que seriam geradas depois da eliminação do ditador e de seus filhos (por sinal assassinados com a barbaridade da qual foram acusados em vida). Que lições podem ser extraídas de tudo isso? Na antigüidade mais remota, sacrifícios humanos eram praticados para deuses implacáveis e, em muitos desses casos, os corpos das vítimas passavam a ser tidos como portadores de indicações dessas deidades; magos ?liam? essas mensagens. O uso foi tal que do hábito de ?ler o futuro? nas vísceras de animais sacrificados criou-se a palavra ?alvíssaras?, que terminou ficando como sinônimo de boas notícias. E agora, senhores da guerra, provectos sacerdotes da violência, o que dirá o sangue e o coração de Sérgio Vieira de Mello?