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EDUARDO BOMFIM * Cresce a complexidade da discussão sobre os rumos e caráter do governo Lula. Além da disputa teórica, política e ideológica, no campo da esquerda, envolvendo comunistas, trabalhistas, setores da esquerda católica, trotskistas e outros, surge uma nova vertente, diga-se de passagem, muito bem respaldada pela grande mídia nacional. Quem é exatamente este novo time que entra em campo, turbinado, apoiado, generosamente, através de páginas inteiras nos cadernos semanais de cultura? É a esquerda que elogia o Palácio do Planalto, exatamente nos pontos que preocupam os comunistas, os patriotas, os progressistas de vários matizes. Ou melhor, é a esquerda da direita. Dito de outra maneira trata-se da mesma turma que respaldou os dois mandatos de Fernando Henrique Cardoso, reforçado por algumas figuras proeminentes, brazilianistas etc. E como identificá-los? Pela incontrolável obsessão de destruir a chamada era Vargas. Na realidade, este foi o mesmo discurso adotado por FHC, na sua primeira campanha e início do governo, quando ainda detinha ares de esquerda, apoiado por seleta tropa de intelectuais. A base da argumentação apóia-se na necessidade de varrer do mapa, exatamente o que houve de positivo, de avanços no período que se inicia em Vargas até a queda de João Goulart. Quer dizer, a criação das indústrias de base, a legislação trabalhista, a organização do movimento sindical, o planejamento estratégico, cuja referência principal é o economista Celso Furtado, além da luta pela construção de um caminho soberano para o País, baseado em uma política nacional de desenvolvimento. Este período citado vivenciou dois movimentos que se chocavam permanentemente. Um deles, do desenvolvimento nacional com inclusão social, distribuição da renda, reforma agrária, urbana, amplas liberdades políticas e valorização de uma cultura que buscava consolidar a nossa identidade. O outro, de caráter bem mais conservador, onde se afastava a participação popular, mantendo-se a concentração da renda e intocável o monopólio da propriedade rural, dos latifúndios. No entanto, havia algo de comum e fundamental entre os dois projetos, a defesa do desenvolvimento auto-sustentável do País e a colossal, histórica briga pela nossa independência nacional. Contra os dois projetos, estavam os segmentos sociais e políticos que defendiam a bandeira de um Brasil eternamente agrícola e submisso incondicionalmente ao imperialismo, principalmente o norte-americano. Uma das principais figuras deste campo, persistente conspirador, golpista atávico, anticomunista por excelência, era o senhor Carlos Lacerda. Foi deputado federal, ex-governador da Guanabara, depois Rio de Janeiro. Líder máximo da extinta UDN, cuja marca política, ou slogan, como quiserem, era: ?O preço da liberdade é a eterna vigilância?. Abro um parêntese para citar uma peça extraordinária de humor político. Alguém, que não recordo o nome, cunhou e para sempre, com ironia, a falsidade que escondia tal assertiva e inverteu a frase, ?o preço da vigilância é a eterna liberdade?. Pois muito bem. A verdade é que entre os dois projetos, ambos derrotados pela força de golpes e entreguismo econômico deslavado, e o terceiro e suas variantes, a subserviência e vassalagem, não há comparações. Quando se fala em ?enterrar a era Vargas?, não é outra coisa senão a continuidade do lacerdismo, do beija-mão ultrajante ao capital internacional, da abdicação do nosso projeto nacional. Os tempos são outros mas a perspectiva da libertação nacional e emancipação social dos trabalhadores continuam como uma necessidade imperativa. Com toda certeza, em outro contexto histórico distinto, o governo Lula situa-se nesta batalha incompleta. A herança maldita que Lula herdou é bem mais profunda e antiga que os oito anos nefastos de FHC, o príncipe do neoliberalismo tupiniquim. (*) É ADVOGADO

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