Opinião
Sou um doido varrido
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Agamenon Magalhães Júnior. ensaísta, gramático e educadorNão sou do tipo de homem absolutamente equilibrado, tenho meus momentos (raros, acho eu) de descontrole. Às vezes a consciência do que é correto me foge e a razão parece se afastar de minhas atividades. Apesar disso, não saio por aí rasgando dinheiro, nem nunca surtei a ponto de atear fogo nas roupas do corpo, correndo peladão pelas ruas. Tenho consciência de que a linha que delimita a sanidade mental e a loucura é, de fato, tênue e, dependendo do que se entenda por comportamento padrão ou convencional, torna-se bastante mutável. Quase sempre o que se estabelece como normativo para o homem vem da sociedade – imposto pelos costumes; e até isso muda conforme o país, a cultura ou a tradição.
Ultimamente ando questionando minha integridade mental porque, às vezes, alguém me chama de “doido”. Outro dia, enquanto eu saía de um prédio numa área nobre da cidade, achei uma carteira recheada de cartões de crédito, com oitocentos reais e mais três notas de cem dólares. Como não havia número de telefone para que eu pudesse entrar em contato com o dono da carteira, eu a deixei na administração daquele prédio. Contei esse fato para alguns conhecidos e fiquei espantado com que ouvi: “Você é maluco? Por que devolveu a carteira? Meu amigo, achado não é roubado! Eu não devolveria, não”. Com isso eu comecei a duvidar de minhas certezas. Eu devo estar perdendo a razão em achar que a honestidade deve ser um quesito moral do homem. Não se apoderar do alheio não seria uma questão de princípio e ética? Talvez eu faça parte de uma minoria de “insanos”; pois a maioria das pessoas nem pensaria duas vezes em tirar vantagem da situação. Devo ser um desajustado mesmo por achar que o homem precisa da honestidade com a mesma intensidade do ar que respira.
Há dias, alguns “colegas” quase me mandaram para uma clínica de recuperação mental porque eu defendi minha profissão: “Sou professor com muito orgulho”, disse-lhes. “Você deveria vestir uma camisa de força, professor; você não vê que esse negócio de lecionar não tem futuro e não enriquece ninguém!”, foi a opinião daqueles que me veem como um D. Quixote e, tal qual o personagem de Cervantes, tão idealista que não consigo distinguir a fronteira entre a realidade e a ilusão (ou a loucura). Confesso que algumas vezes já tentei matar meus dragões, olhando-os nos olhos, quando eles não passavam de moinhos de vento. Esse sonho quixotesco por uma educação melhor deve “desequilibrar” qualquer um mesmo!
Tenho alguns colegas que acham que “não bato bem da bola”, porque não me deixo seduzir pelos prazeres momentâneos. Ora, a fidelidade ao próximo é outra coisa fora de moda ou pouco comum entre as pessoas. Receitaram-me medicação com tarja preta quando eu disse que iria rezar a Deus por um grupo de pessoas doentes de câncer. “Deus? Quem é esse?”, desabafou um cidadão de pouca fé, apoiado por todos que o cercavam. Até Deus, na sociedade moderna, foi rebaixado a uma figura mitológica. Se honestidade, amor à profissão, idealismo e fé em Deus são assuntos que não interessam ao mundo atual, é porque meu lugar é no hospício!