Opinião
A voz de Vieira de Mello
Mártir-símbolo da universalidade do terror deste começo de século, o diplomata Sérgio Vieira de Mello dedicou suas últimas palavras a um apelo pela paz e pelo avanço do trabalho da ONU: ?Não deixem que eles retirem a missão?, teriam sido as últimas palavras, ditas ao sargento Von Zehle Júnior, que tentava resgatá-lo dos escombros. O assassinato de Vieira de Mello deveria gerar, além da necessária onda de repúdio ao terror, várias reflexões sobre o papel da Organização das Nações Unidas no mundo contemporâneo. A última frase do diplomata brasileiro é exemplar e reflete uma posição lúcida, clara e firme num momento dramático. Às portas da morte, Sérgio Vieira de Mello legou à posteridade uma convocação, para que não se interrompesse o trabalho pela paz, mais que isso, suas palavras são uma exortação contra o acovardamento, contra o recuo em condições adversas. Corajoso, Sérgio Vieira de Mello sobreviveu a várias missões perigosas sem nunca ter vacilado nem criticado sua organização. Depois de seu assassinato foi vazada para a imprensa a informação de que ele teria sido alvo de um atentado no dia 5 de agosto (apenas duas semanas antes de ser trucidado). O brasileiro colocou a sua missão e sua profissão acima de sua própria vida. Não era à toa que seu nome estaria cotado para ser o próximo secretário-geral da ONU. Vieira de Mello é um exemplo de dedicação irrepreensível a sua carreira e aos mais nobres ideais. Destacou-se desde cedo na defesa de uma das mais complexas e perigosas funções da diplomacia internacional, a questão dos refugiados. Viveu exemplarmente sobre verdadeiros barris de pólvora, como os Bálcans e foi o grande condutor da transição de uma das últimas colônias do mundo, a ilha de Timor Leste, onde teve a sensibilidade de usar até o tênis (seu esporte preferido) como elemento de interação social e política. As derradeiras palavras desse grande homem deveriam ser atentamente ouvidas pelas lideranças de todo o mundo. Não interrompam as missões de paz, não conciliem com o terror e com a guerra; não explodam a causa de Vieira de Mello.