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Opinião

Segredos natalinos

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“Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”, colhido do Evangelho de João, 8:32, foi o texto bíblico mais utilizado para sustentar políticas populistas no Brasil em 2019. A recente divulgação pelo papa Francisco da abolição do Sigilo Papal para investigações de abuso sexual veio paralelamente à informação de que os novos mecanismos de controle instituídos pelo vaticano tinham evitado que uma suposta corrupção na compra de um valioso imóvel em Londres fosse consumada. Questionado, Francisco respondeu: “É a primeira vez no Vaticano em que a tampa da panela foi tirada de dentro, não de fora”. Ele se referia ao fato de que no passado a maioria dos escândalos financeiros foi revelada por pessoas de fora da Igreja.

É sintomático que essas revelações tenham surgido a poucos dias da celebração do Natal, como se isso concedesse ao Sumo Pontífice como uma chance de reafirmar seu compromisso e do Vaticano (essa posição foi uma exigência de líderes da Igreja reunidos em uma cúpula em fevereiro próximo passado) com coisas essenciais não só à Igreja Católica, como aos seres humanos de um modo geral --- a busca da verdade. É reanimador que, em uma época na qual o desconhecimento, a obscuridade, a anti-ciência e até as fake news são tão cultivados e propagados por políticos populistas, o Vaticano, cortando na própria carne, dê um exemplo primoroso do uso de ferramentas cruentas para se chegar à verdade dos fatos. Nesse sentido, há um filme recente onde se vê o papa Francisco --- mais do que em missas suntuosas no Vaticano, ou em audiências com empertigados próceres mundiais --- em visitas a hospitais miseráveis na África subsaariana, abraçando crianças vitimadas por doenças contagiosas ou atuando pessoalmente como salva-vidas de imigrantes tunisianos em precaríssimo bote que afundava em noite tempestuosa no mar Mediterrâneo. Quando interpelado pelos repórteres, Francisco respondeu “Ternura não é fraqueza, ternura é força”. Ou: “Poder não é arrogância. Poder é compaixão, é solidariedade”. Lembro-me dos meus cultos de Natal em um lar modesto onde não existiam presentes nem consumismos, mas, com muito respeito e com a Bíblia na mão, minha mãe nos alertava para os despossuídos, que igualmente continuam sofrendo nas filas de hospitais, carentes de educação, de segurança, engrossados por levas de imigrantes à procura de uma única possibilidade de sobrevivência. Durante todo o ano são esquecidos pelo mundo “civilizado” que só lhes dedica um mínimo de “atenção” nessa época, quando o “espírito natalino”, fugaz e superficialmente lhes assopra, para no dia seguinte, entre ressacas e cozinhas cheias de lixo dos abusos da noite anterior, desaparecer totalmente, para só renascer hipocritamente um ano depois. O papa Francisco, ao mostrar que a religião não pode ser cúmplice da mentira e da falsidade, dá um exemplo histórico,principalmente para aqueles políticos populistas que se autonomeando ultra-religiosos e usando inescrupulosamente o Evangelho, utilizam todos os meios que o poder lhes proporciona para esconder as verdades que lhes são incômodas. Feliz Natal para todos,e que possamos conviver pacificamente com menos arrogância e com mais verdades.

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