Opinião
Ensaio sobre a arte de mentir
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Os políticos brasileiros e os galanteadores têm algo em comum: o forte apelo dramático (e hipócrita) às promessas. Quem nunca ficou decepcionado com uma promessa não cumprida feita por político? Quem já não chorou (de raiva ou desgosto) por notar que a vida de centenas de pessoas poderia melhorar se houvesse significativa ação política? Já ouvi da boca de raposas velhas do governo juramentos que se transformaram em cinzas: políticos mal prometem, e rapidamente percebemos a fragilidade da palavra deles.
Vê-se a mesma característica com os cortejadores. O “bom de lábia” usa seu poder de encantamento para seduzir a mulher por meio da doçura das palavras. “Do alto, Júpiter ri dos perjúrios dos amantes”, é uma expressão famosa (inclusive por ter sido utilizado em “Romeu e Julieta”, de Shakespeare, nas palavras que a jovem dirige ao amado, na cena do balcão). Essa citação nos remete à ideia de que não importa a palavra utilizada (seja verdadeira, seja falsa), o fundamental é conseguir o que se deseja: iludir, ludibriar, passar a perna no próximo, tirar proveito... Há uma expressão que diz: “Os políticos não amam, nem odeiam”. O que sobra, depois dessa constatação, como característica dos homens públicos, é a indiferença a tudo e a todos, o desprezo ao ser humano: eles investem neles mesmos, eles trabalham para si mesmos, eles enxergam apenas os próprios interesses, eles se esforçam para encher os próprios bolsos (com dinheiro honesto ou não, tanto faz para eles, o importante é enriquecerem). E o resto da sociedade? Que se dane... Já fui testemunha ocular de casos em que mulheres se entregaram a galãs de meia-pataca e só tiveram como resultado decepção. Cafajestes se aproveitaram da boa-fé de meninas (inocentes à procura de relacionamento sério ou maduro). Relacionamento sério e pessoas comprometidas com a política são dois dos poucos pedidos dos brasileiros.
Algumas pessoas não entendem por que centenas de cidadãos se sacrificam, em determinados períodos do ano, em filas quilométricas, em frente ao Fórum Eleitoral de Maceió para um recadastramento biométrico ou para a regularização do título de eleitor. O motivo se resume em uma só palavra: esperança. A população tem suas razões para viver xingando a classe política, motivos não faltam, porque a histórica apatia pelo que diz respeito ao coletivo deixa a sociedade calejada nesse assunto. Entretanto, sempre existe o desejo (por mais subconsciente que seja) de amenizar a mazela política através do voto. Votando certo, o cidadão se apega a essa atitude para mudar a realidade, deixando-a menos miserável. As cicatrizes (do coração, da alma e da consciência) servem para nos alertar contra os demagogos da vida, contra quem se serve da bondade e esperança alheias para ludibriar, ou contra os que sentem prazer com o perjúrio. Quando o povo fica envolvido em mentiras políticas – assim como o coração se deixa levar por afetos “pequenos” – fica (de novo) a esperança de que haja transformações.