Opinião
Espiral de viol�ncia
HUMBERTO MARTINS * O atentado cometido em Bagdá, capital do Iraque, contra a representação da Organização das Nações Unidas, ONU, é mais um capítulo da seqüência de violências que parece não ter fim na região do Oriente Médio. Desta vez, o que parecia ao brasileiro um conflito distante ? sobre o qual, o País é informado pelos noticiários dos diversos veículos de comunicação, principalmente pela TV, que traz a guerra para dentro dos nossos lares ? parece-nos uma coisa bem próxima, pois foi morto o embaixador Sérgio Vieira de Mello, expoente da diplomacia nacional, cuja incessante atividade no principal organismo que congrega as nações, o credenciava para ser o próximo secretário-geral da ONU. Quem atentou para o noticiário internacional, tinha sua atenção atraída pelo pragmatismo do embaixador Vieira de Mello. Pouco menos de um mês após ter ido a Casa Branca, avistar-se com o presidente dos Estados Unidos, George Bush, principal responsável pelo agravamento da crise no Oriente Médio ? um dos primeiros a lamentar a morte do diplomata ? Vieira de Mello declarou, em Bagdá, em alto e bom som, referindo-se à explosiva situação no país para a qual fora destacado: ?Quem gostaria de ver seu país ocupado? Eu não gostaria de ver blindados estrangeiros em Copacabana?. Mas o pragmatismo não era a única qualidade do diplomata morto em ação. Ele procurava as missões difíceis, embora atuando numa atividade em que o bem vestir e a convivência social são opções preferenciais, se possível numa bela e civilizada capital européia. Participou da ação da ONU para devolver a paz e a estabilidade política em várias nações da África, Ásia e Europa. Entre tantas missões relevantes, foi no Timor Leste que o diplomata se transformou em estadista, ao receber da Indonésia um pedaço de terra ensangüentado, convulsionado e inseguro. E entregá-lo, pouco tempo depois, ao presidente eleito, Xanana Gusmão, razoavelmente estruturado e pacificado. Realizou assim, na antiga colônia portuguesa, em médio prazo, aquilo que poucos lograram fazer, mesmo em situações de menor emergência. Poucos dias antes de morrer, em circunstâncias trágicas, Vieira de Mello dissera a amigos que ONU e Estados Unidos deveriam ter um entendimento sério e profundo sobre o Iraque. Do contrário, continuava sendo um país vencido, ocupado por duas superpotências, Estados Unidos e Inglaterra, ou deveria ser entregue à ONU, para ser iniciado um trabalho de recuperação que demandaria enormes investimentos, mas, principalmente, dedicação sem limites e o reconhecimento de que os iraquianos é que devem, de maneira soberana, escolher os rumos do seu país, cabendo às demais nações tão somente criar condições para tal. A amarga lição proporcionada por mais esse atentado no Oriente Médio reafirma a realidade intangível de que nenhuma nação, por mais poderosa que seja, pode impor sua vontade e seus interesses à outra. A violência da guerra gerou, naquela nação, uma espiral de violência que demorará para ser revertida. A exemplo do que acontece, também, no Afeganistão entre palestinos e Judeus, onde o emprego de violência gera, como conseqüência, mais violência. A espiral de violência, evidenciada em todos os recantos do planeta, constitui um verdadeiro atentado à paz, atingindo diretamente a dignidade das pessoas, assim, ferindo de morte a soberania das nações. (*) É DESEMBARGADOR DO TJ/AL