Opinião
Enigmas de 2019, desafios para 2020
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Machado de Assis escreveu em Iaiá Garcia: ”O acaso propusera-lhe um enigma; o tempo dava-lhe a decifração”. Ao encerramento do ano, é tradição fazer uma retrospectiva, assim como traçar expectativas para o novo ano. A retrospectiva mostra um ano cheio de enigmas, mas um se sobressai: o presidente da República, que se elegeu usando uma plataforma de moralidade tão ansiada pela população, conseguirá mantê-la em 2020?
Outros enigmas/expectativas nacionais: um maior crescimento econômico virá com melhorias de vida extensivas à maioria, inclusive ao elevado número de desempregados? O País conseguirá reencontrar o caminho do desenvolvimento sem rachaduras profundas em sua estrutura de Estado democrático de Direito? Existe esperança para a redução da polarização e do ódio entre os radicais extremistas? Enigma: 2020 mostrará que o que reprovamos nos adversários políticos, como corrupção, não aceitaremos nos aliados? Exemplo: as formas ultra-enigmáticas que propiciaram enriquecimentos de familiares e amigos próximos de altíssima autoridade da República, tipo uma loja de chocolate de shopping vendendo tanto que o seu proprietário é o Neymar do Chocolate? Mas que também é craque no ramo imobiliário, pois consegue rendimento de 300% em imóveis usados em apenas um ano, no decadente bairro de Copacabana, onde os similares, só mixurucas 11%? E um amigo íntimo da família, um enigmaticamente desaparecido Queiroz, também surfando nessa onda miraculosa, faz fortuna vendendo carros usados - serão reproduzíveis? Caso reproduzíveis, a decifração desses enigmas poderá alavancar ainda mais a economia, ou pelo menos ajudará a digna e laboriosa associação dos revendedores de chocolates, dos corretores de imóveis e a de carros usados a igualmente obterem resultados tão extraordinários. Em época de imensa valorização dos coach, eles poderiam convidar o Bill Gates do Senado para lhes ensinar como é que se ganha dinheiro. Esqueçam-se rachadinhas e milícias, isso não existe, é tudo resultado de competência e trabalho, portanto, deve ser ensinado para os preguiçosos e incapazes empresários desses ramos! Felizmente, não existem mais elementos inconvenientes e destruidores da moral e dos bons costumes, como aquele Sérgio Porto, que num momento desse, debocharia da competência empresarial e exclamaria: Ou restaure-se a moralidade ou nos locupletemos todos!” Enigma: metade dos brasileiros (Datafolha) abandonou os grupos do Whatszap para evitar conflitos com amigos e parentes diante da polarização e do radicalismo entre os devotos de Lula e de Bolsonaro. É uma parcela da população que repudia essa receita passional que se retroalimenta de ódios, de radicalismos e de fake news, e acredita que corrupção não tem lado e que a lei é para todos? Essa parcela significativa, equilibrada, não ideológica, despreconceituosa, e que pode recivilizar o País desconfia que a propaganda da moralidade e do combate à corrupção foi só instrumento de campanha eleitoral? Ela tem voto? Que venham 2020 e mais...