Opinião
2019: o ano que não começou
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Um dos mais importantes livros da literatura política brasileira, intitulado “1968: O Ano Que Não Acabou”, de Zuenir Ventura, um dos meus mestres intelectuais, fala de mudanças ocorridas no mundo à época e válidas até os dias atuais. Esta obra literária retrata os anos sessenta, particularmente, o icônico ano de 68, um dos mais importantes do século XX, pelos acontecimentos que mudaram para sempre a história mundial e levaram os homens a uma outra realidade, na qual se estabeleceram novos princípios e ressignificaram velhos valores de uma ordem mundial conservadora ultrapassada.
Já neste ano de 2019, ocorre um processo inversamente proporcional àqueles eventos que marcaram nosso passado definitivamente. Foi um ano caracterizado por tantos retrocessos, que a impressão que me deixa é a de que andamos mais para trás do que para frente. Neste final de ano melancólico, me sinto como se tivesse entrado em uma máquina do tempo e regressado àqueles anos da ditadura militar, que foi imposta aos brasileiros pelo golpe de 64. Este período, muito bem explicado pelo documentário de 2012 , “ O Dia que Durou 21 Anos”, de Camilo Tavares, revela a influência que os Estados Unidos tiveram na derrubada do legítimo e democrático governo João Goulart. O regime liderado pelos generais que se revezavam nos plantões do Palácio de Planalto, chegou aos seus estertores em 1985, quando tivemos a transição para o regime democrático, liderada por Tancredo Neves, construtor da “Nova República”, cujo destino, ironicamente, designou que fosse consolidada por José Sarney na presidência da república. Um homem de confiança do regime de exceção, foi quem liderou, sob a batuta do Doutor Ulysses Guimarães, a consolidação do Estado Democrático de Direito no Brasil. Acreditamos que a democracia estava definitivamente alicerçada. Ledo engano. Passados 55 anos da quartelada encabeçada pelo integralista General Olímpio Mourão Filho, ocupando o antigo estado da Guanabara, com apoio da 4a Divisão de Infantaria de Juiz de fora, sem resistência, que precipitou a ação militar que implantou o regime autoritário de 64, assume a presidência um capitão que foi expulso das forças armadas por próceres ministros do Supremo tribunal Militar, cujos valores mais reacionários desta mesma ditadura são defendidos por este mesmo capitão, agora eleito pelo povo presidente da República. Nem mesmo o genial escritor do absurdos, o tcheco Franz Kafka, pensaria um enredo tão Kafkiano como este. Seria melhor que não veiculassem as tradicionais retrospectivas de fim de ano, pois, diante de tantos retrocessos, melhor seria fazer de conta que este surreal 2019 não existiu. Façamos como o magistral historiador Eric Hobsbawm, no seu ensaio histórico “Era dos Extremos: O Breve Século XX - 1914 - 1991”, para quem o século passado iniciou-se com a Primeira Guerra Mundial e findou-se com a queda da União Soviética. Os anos que antecedem e sucedem esses eventos tornam-se indignos de registro, diante de fatos de tamanha magnitude e impacto na humanidade. Assim foi 2019 para mim, ano que descartarei a folhinha do calendário, como se nunca tivesse sequer começado. Que comece em breve um feliz 2020 a todas e todos.