ARTIGO
Suave coisa nenhuma
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Eu retirei o título desse texto da maravilhosa canção “Amor”, do grupo Secos e Molhados. A ideia poética passa pelo conceito de que o amor chega sutilmente, mas é preciso atitude para preservá-lo. “Suave coisa nenhuma/que em mim amadurece”, canta Ney Matogrosso, acompanhado do contrabaixo galopante de Willy Verdager.
O amor, para mim, é isso: exige atitude, nunca é um sentimento passivo; ele requer força, coragem e disposição para que possa sobreviver no coração de quem o acolhe. Falo do verdadeiro sentimento, não aquele “malmequer, bem-me-quer” de filmes românticos. Refiro-me ao amor que ultrapassa a própria vida (que até a morte não tem poder sobre ele). “Acredito em amores eternos, daqueles que vão com você para qualquer lugar, não importando o quão distante você esteja, porque a pessoa amada reside em seu próprio coração. Acredito em amores eternos e sublimes, capazes de reconsiderar tudo, com suavidade, ternura e perdão. Acredito, sim, em amores para toda a vida, e além da vida, pois seria um tipo de amor unido à própria alma, e sem alma a vida não tem razão...”, escreveu o poeta porto-velhense Augusto Branco.
Um fato que ilustra bem esse assunto aconteceu comigo cerca de três ou quatro anos atrás. Tive um aluno que, vez ou outra, chegava ao colégio com hematomas pelo corpo. Nunca lhe perguntei o porquê daqueles machucados, mas um dia ele me revelou: os pais eram alcoólatras. Pai e mãe bebiam e, por causa do efeito do álcool, batiam nos filhos. Até aí parece uma história como qualquer uma que se ouve em toda parte; o que diferenciou esse caso dos outros foi a atitude do meu aluno: em vez de ele se revoltar contra os pais, abandonando-os ou revidando a agressão (ninguém o recriminaria se fizesse isso), pôs-se a cuidar ainda mais do pai e da mãe. Ele mesmo relatou: certa vez, os pais passaram o dia bebendo, agrediram os filhos e depois retornaram a beber.
Quando estavam quase desmaiados por causa da embriaguez, o filho (que sofrera espancamento de ambos) levantou o pai do chão, deu banho com todo o carinho e o arrumou na cama. Fez a mesma coisa com a mãe: ajudo-a a se levantar, lavou-a e com todo o zelo do mundo a acomodou no quarto. Ressalte-se o fato que esse meu aluno tem um metro e noventa de altura e é faixa-preta em judô. Ele poderia revidar aquela violência com mais violência, porém preferiu lhes retribuir com amor. A emoção mais pura se apodera de meus olhos rasos de lágrimas quando me lembro desse fato. O amor se basta. Pode-se pensar que relato uma história de sofrimento. Que nada: é uma história de amor. Um Amor com “A” maiúsculo, que ultrapassa a racionalidade, eleva o espírito e faz pulsar a própria existência humana. É como diz aquela velha canção de Almir Sater e Renato Teixeira: “É preciso amor pra poder pulsar”. O amor é a força mais poderosa que existe e quem se esquece disso falha como ser humano.
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