Opinião
As trevas e a luz
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Em 1999, os pesquisadores David Dunning e Justin Kruger, da Universidade de Michigan, formularam o conceito do efeito Dunning-Kruger, segundo o qual indivíduos que possuem pouco conhecimento sobre um assunto tendem a se achar mais sábios do que aqueles que realmente mergulharam no tema. A sua repercussão, então, ficou restrita ao circuito acadêmico. Fenômenos mundiais como o ressurgimento de doenças, aparentemente controladas, como o surto de sarampo na Europa, onde ocorreram mais de 90.000 casos só no primeiro semestre de 2019, obrigaram a ciência a tentar entender o que está ocorrendo.
Uma das mentes que se debruçaram sobre o tema foi Tim Berners-Lee, exatamente o físico que, em 1989, criou a rede mundial de computadores na internet tal como a conhecemos hoje: ele concebeu a sigla www ( World Wide Web) e acreditava que a humanidade aproveitaria para entrar em um novo ciclo de intenso desenvolvimento e progresso generalizados, todavia, em carta aberta, recentemente reconheceu: “Embora tenha aberto oportunidades, dando voz a grupos marginalizados e facilitado a nossa vida cotidiana, a web também deu abertura àqueles que espalham o desconhecimento, a ignorância e o ódio”. Três décadas depois do extraordinário feito de Berners-Lee, 4 bilhões de indivíduos, cerca de 120 milhões de brasileiros, acessam a internet diariamente. A quantidade de informações com as quais se tem contato diário é colossal: em meros quinze minutos, a humanidade gera mais informações que o triplo de dados que há armazenados no maior acervo físico do mundo, o da Biblioteca do Congresso Americano. Contudo e paradoxalmente, o avanço das hordas anticiência, a dos terraplanistas e os retrocessos políticos autoritários que ameaçam a democracia se somam e interagem em um imenso desafio para a ciência, como para a humanidade como um todo.
David Dunning, um dos formuladores do efeito citado no início desse artigo, foi um dos cientistas instados a se manifestar e respondeu: “Essa é a questão com a internet: há muita informação maravilhosa nela e também muita fraude. O que acaba levando as pessoas a acreditar que têm conhecimento sobre algo, quando na verdade esse algo não passa de uma mentira. É difícil para elas diferenciar o falso do verdadeiro na redes”. Existem várias pesquisas nas maiores universidades mundiais aprofundando e referendando essa premissa.
Espremendo esses achados e as preocupações com essa situação e resumindo-as nacionalmente: teremos um ano onde ocorrerão importantes eleições municipais que poderão filtrar ou não tendências apresentadas em 2018, e a economia, que apresenta sinais alvissareiros de recuperação, poderá evoluir melhor em um ambiente de menos mentiras e mais verdades, e onde as fake news precisarão ser repudiadas rigorosamente, principalmente na saúde, que é onde elas mais prosperam, superando até a política. A volta de doenças controladas é um dos seus frutos malignos. A responsabilidade é coletiva, mas, inquestionavelmente, é de cada um, individualmente, o que mostrará o seu compromisso com a verdade e o seu caráter.
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