Opinião
O POPULISMO E MORO
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Federico Finchelstein em sua obra Do Fascismo ao Populismo, lançada recentemente em Lisboa, faz um estudo notável - poderoso, profundo e erudito - do renascimento do populismo e do regresso do fascismo, esse sob formas bastante adaptadas ao nosso tempo, e não mais como regimes fascistas militares, expurgados no final da Segunda Guerra mundial. Finchestein traça uma linha clara que separa o populismo do fascismo, embora ambos se nutram das mesmas ferramentas para chegar ao poder e nele permanecer indefinidamente, como a necessidade de um líder carismático e autoritário que simule ser de “fora” da política, de ser ele a única voz do povo e que só ele o representa; quem é contra ele é inimigo do povo. Os adversários são também antinação e antipatrióticos. As ferramentas utilizadas pelo populismo são sempre as mesmas: família, Deus e pátria, no caso, um nacionalismo exacerbado, insinuando para o povo que todos os adversários políticos - reais ou imaginários - são inimigos ferrenhos desses valores. Principalmente, o líder populista alardeia ser o único e real inimigo da corrupção. Segundo Finchesltein, o populismo tem sido usado pela direita e pela esquerda, como na Venezuela, de Nicolás Maduro, e nos EUA, de Donald Trump.
Uma diferença concreta entre o populismo e o fascismo, segundo o autor, é a TÊNUE SEPARAÇÃO entre o discurso e a prática: embora todos os populistas agridam e ameacem repetidamente a imprensa livre e a liberdade de expressão, tentem vergar e desgastar as instituições democráticas, como o Legislativo e o Judiciário, sejam inimigos da diversidade cultural, das artes e dos artistas, com raras exceções, e das minorias, o que separa o populismo do fascismo é aquele passo a mais: a intervenção concreta - o amordaçamento da imprensa livre, o fechamento do Congresso e a anulação da Justiça . Nesse contexto, o ex-secretário de Cultura do governo, Roberto Alvim, ao tentar impor um modelo de dirigismo cultural igualzinho aos utilizados pelos nazistas alemães, fascistas italianos e stalinistas soviéticos, estava atravessando a tênue barreira do populismo para o totalitarismo. Na Venezuela, Maduro já fechou jornais e televisões que não se submeteram ao seu autoritarismo e criou um arremedo de Corte Suprema, que sempre lhe é submissa. No Brasil atual, as agressões cotidianas do poder contra a imprensa são crescentes em virulência. Estimula-se a circulação de listas pelas redes sociais propagando a extinção da concessão de proeminente emissora de televisão, quando a legislação determina que, além da prática comprovada de ilicitudes pela emissora, o Congresso precisa aprovar o seu fechamento. Donde a intenção é uma só: incitar o ódio cego contra a emissora, assim como estimular o antagonismo e a polarização nacional. A última e mais recente ação de cunho populista do Planalto foi a tentativa sub-reptícia, urdida nos subterrâneos do poder, de esvaziar e desmoralizar o ministro Sérgio Moro, tirando-lhe todas as condições de combate à corrupção, justamente a bandeira mais acenada para o eleitorado e por ele acalentada. E foi a imprensa livre e a perseguida e proeminente emissora de televisão que, juntos, alertaram a nação e evitaram que mais um grande descalabro fosse cometido contra o Brasil.