Opinião
A tristeza de Deus
RONALD MENDONÇA * Não é de agora a suspeita de que Deus não tem nada a comemorar com o rumo que o mundo tomou. Como sabem, depois de fazer uma clonagem humana a partir de um fragmento da costela de Adão - surgindo assim a mulher - e instalar o casal num delicioso sítio onde ?havia de um tudo?, Ele sossegou. Aqueles teriam sido os melhores anos de Sua longa existência. Muito avançados para a época, nossos papais eram vegetarianos e entusiastas do nudismo, como depois ficou comprovado. Trabalho, nem pensar. Adormeciam ouvindo estrelas, depois de longos passeios pelos bosques caprichosamente projetados pelo Grande Arquiteto, com a candura do meu neto de 2 anos de idade. Às vezes brincavam de esconde-esconde ou colhiam flores silvestres que adornavam as longas madeixas da divinal Eva, deixando-a ainda mais sedutora ? detalhe, aliás, que escapava ao bom Adão. As rosas ainda não tinham espinhos e as onze-horas abriam a qualquer hora. Não havia melancolia nos mugidos das vacas nem maus presságios nos uivos dos lobos. Tristeza e preocupação eram palavras abolidas do dicionário daqueles dois. Sorriam de tudo. Faziam festa quando chovia, emocionavam-se com o nascer do sol e não sentiam a menor nostalgia com o poente. Apreciavam o marulho das ondas e a paz das lagoas. Banhavam-se em rios de águas transparentes, onde abraçavam-se e beijavam-se com a pureza dos querubins. Não há registros totalmente confiáveis, mas demonstravam não estar nem aí para as diferenças morfológicas e as desafiantes peças de quebra-cabeça que seus corpos sugeriam. Eram felizes e não sabiam. Mas, como diz o Palocci, tudo tem um custo. Banido do Céu a pontapés, Lúcifer ficou desempregado ? e injuriado. Habitante das trevas, é difícil imaginar como deixaram uma figura repelente como aquela ir parar no Éden para encher de caraminholas a cabecinha inocente de Eva. Naquele dia, o que era doce acabou. Parece que foi justo aí que nasceu a expressão, ?o que é bom dura pouco?. Expulsos do Paraíso sob vara, os transgressores enfrentariam mil problemas. Se não bastasse a maldição do pecado original, o alvorecer da espécie humana iria conhecer o ciúme, a maledicência e a inveja, culminando com a morte de Abel. Daí em diante, azedou ainda mais a relação dos homens com o seu Criador. Consta que, magoado, o antigo proprietário passou adiante o Paraíso, que se transformou no maior centro exportador de serpentes do planeta. Hoje, paraísos de verdade, infelizmente, só restam mesmo as sinecuras de serviços públicos e os paraísos fiscais. (*) É MÉDICO E PROFESSOR DA UFAL