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Nº 5716
Opinião

Jerusal�m, Jerusal�m!

PE. MANOEL HENRIQUE DE MELO SANTANA * Talvez não exista no mundo cidade historicamente tão importante, tão provada e ainda tão simbólica como a cidade de Jerusalém. Melquisedec é apresentado em Gênesis 14,18 como rei de Salém, além de Sacerdote do Altís

Por | Edição do dia 24/03/2002 - Matéria atualizada em 24/03/2002 às 00h00

PE. MANOEL HENRIQUE DE MELO SANTANA * Talvez não exista no mundo cidade historicamente tão importante, tão provada e ainda tão simbólica como a cidade de Jerusalém. Melquisedec é apresentado em Gênesis 14,18 como rei de Salém, além de Sacerdote do Altíssimo. A Bíblia termina o livro do Apocalipse falando em Jerusalém (Ap 3,12;21,2) apresentando-a como a Nova Jerusalém, em oposição à Babilônia. Seu nome vem do acádico Urushalim. Shalim/Shalem é a raiz que traduzimos por “paz”. Jerusalém pode remontar aos  tempos pré-isrealitas, surgida no decorrer  do 3o e do 2o milênio a.C. Davi conquista Jerusalém dos Jebuseus por volta de 1000 a.C. No Monte Moriá se localiza o Templo construído por Salomão. Em 63 a.C. Jerusalém e toda a Palestina passam a ser domínio romano. A última data a do ano 70 d.C. quando foi destruída completamente. Jerusalém é a cidade dos sonhos de todos os judeus e cristãos. É a cidade idealizada, ideologicamente construída ao longo dos tempos. Os profetas apontam Jerusalém como o centro do mundo. Em Jerusalém todos virão do Oriente e do Ocidente para adorar o verdadeiro Deus. Todos nós imaginamos uma cidade como lugar de paz. Hoje diríamos que imaginamos uma cidade de índices humanos qualificados. Jerusalém não morre, ela é o sonho eterno de toda a humanidade. No amanhã, esta cidade será a nova Jerusalém, descida do céu, onde um rio de águas límpidas corre espalhando vida. Aqui Deus e o Homem habitarão companheiros e parceiros de uma nova história. Todo judeu se orgulha de Jerusalém. Assim, Jesus toma decididamente caminho de Jerusalém. Atraído pela Cidade Santa, embora soubesse de antemão que o seu lugar mais santo, o Templo, não o fosse mais, pois havia se tornado num covil de ladrões. A Semana Santa se inicia com Jerusalém se agitando, com a chegada de Jesus (Mt 21,10-11). Esse aparecimento de Jesus evoca lembranças e expectativas messiânicas. Sempre a qualquer momento se aguardava uma insurreição. Os zelotas estavam prontos para qualquer intervenção, o que vai acontecer nos anos 70 d.C. Mateus e João apresentam, porém, Jesus entrando humilde e pacificamente, montado num jumentinho, ao lado do povo que alegre espalha seus mantos pelo chão e agita ramos gritando Hosanas. Jesus aceitou e acolheu esta manifestação popular, que alguns até imaginam insuflada pelos zelotas. No tempo da Páscoa, Jerusalém sempre é bem vigiada militarmente pelos romanos, dado o risco de revoltas populares. Outros ainda vão mais longe, quando afirmam que o golpe de Jesus-zelote fracassou e por isso o grupo foi refugiar-se no Monte das Oliveiras. Jesus desejava intimamente chegar ao centro do poder religioso e político e ali anunciar-lhe o Reino de Deus. Lá, no Templo, o Messias seria revelado. No Talmude está declarado que o Messias faria a sua primeira aparição em Jerusalém, em frente à alta corte. Mas certamente Jesus teria assumido a concepção apocalíptica e não política de Messias. Oscar Cullmann qualificou o zelotismo, movimento religioso, como um caso extremo de politização da fé. Jesus, em seguida, “entrou no Templo e expulsou todos os que vendiam e compravam no Templo; derrubou as mesas dos cambistas e os assentos dos que vendiam pombas”. Enquanto o povo se agitava de alegria e movido de esperança, as autoridades ficam indignadas. A cena é provocadora. De um lado Jesus restaura o Templo, purificando-o do comércio em volta e, ao mesmo tempo, restitui ao recinto sagrado a sua verdadeira função de casa de oração. Jesus sai de cena e vai para Betânia, onde passará a noite. “Jerusalém, Jerusalém, tu que matas os profetas e apedrejas os que te são enviados, quantas vezes eu quis reunir os teus filhos como uma galinha reúne seus pintinhos debaixo das asas, e vós não quisestes!” Em seguida, Jesus profetizará o destino final de Jerusalém; “Aqui não ficará pedra sobre pedra...” (Mt 24,2). E Jesus chorou sobre Jerusalém. Jerusalém não acolherá o Filho de Deus. Levada pelos seus chefes religiosos e políticos vai entregar Jesus à morte. Sempre quando lhes é conveniente as autoridades, não importa de que lado estejam, se juntam para exterminar quem lhes perturba a sociedade. Vai matar o Autor da vida e quem pode lhes trazer a paz. Ainda hoje a Cidade, freqüentes vezes, faz opções contra o povo, matando-lhes as esperanças presentes nos pequeninos e simples de coração. O futuro das cidades desumanas é delas não ficar pedra sobre pedra. Os profetas e místicos continuam sendo incômodos. A morte tem sido seu destino. Hoje, 24 de março de 1980, tombava no altar Dom Oscar Romero, arcebispo de El Salvador, assassinado quando celebrava a Eucaristia, misturando, naquela manhã, o seu sangue ao de Cristo. Para nós, toda Eucaristia é uma memória perigosa, pois é lembrança de Jesus e todos aqueles que continuam dando suas vidas pelos irmãos. (*) É PÁROCO DA IGREJA DE SÃO PEDRO – PONTA VERDE – MACEIÓ/AL

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