Opinião
Pediatria pol�tica
Naturalmente, todos os governantes têm o direito de alocar pessoas de sua confiança política e partidária em cargos comissionados. Evidentemente, todos os governantes têm a obrigação de distinguir dentre os cargos a ser ocupados aqueles que exigem conhecimentos técnicos de seus ocupantes. Observadas essas duas condições basilares, as demandas são respondidas, quer sejam as das bases partidárias próprias e aliadas, quer sejam as técnicas. Em vários casos, as duas poderão convergir, em outras situações isso não acontecerá ? e nesses casos, o bom senso indica que o critério a ser usado será técnico. Segundo recentes notícias divulgadas pela grande mídia brasileira, isso não tem sido assim nesse início de governo Lula. Sobressaiu-se para além dos naturais reclamos dos aliados não contemplados o caso do Instituto Nacional do Câncer (Inca). Endereço referência para o tratamento e a pesquisa do câncer no Brasil, esse instituto padeceu de grave crise que culminou com a saída de vários dirigentes, arranhando o currículo de um ex-ministro da Saúde. A doença que acometeu o Inca foi identificada como sendo o partidarismo no preenchimento dos cargos técnicos. Ontem, novas manchetes apontavam para outra ocorrência da mesma moléstia. Novamente, o molestado fazia parte do tecido da área da Saúde. Pediram demissão nove dos 10 integrantes da Câmara Técnica de Medicamentos da Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Demitiram-se em protesto contra o que identificaram como ?sectarismo e partidarismo na gestão do órgão, esvaziamento de suas funções e falta de transparência na liberação para venda de novos medicamentos?. O agravante é que são especialistas indicados pela comunidade científica e trabalhavam sem remuneração. O ministro da Saúde esquivou-se de comentar o explosivo tema, o que torna ainda mais insegura e tensa a situação nessa área estratégica de governo. Tais achaques podem ser considerados doenças infantis da governança, mas devem ser erradicados sem perda de tempo, caso contrário comprometem irreversivelmente a saúde e o crescimento político e administrativo de qualquer governo.