Opinião
Os mortos pela paz
DOM EDVALDO G. AMARAL SDB * ?Juntamente com toda a Nação, eu expresso meus sentimentos de pesar por aqueles que deram a vida nos campos de batalha e nas devastações da guerra, e faço votos por um mundo de paz e de crescente desenvolvimento para nosso país?- afirmou o Imperador do Japão, durante a cerimônia em memória dos caídos na guerra, na Praça Chiyoda, em Tóquio, por ocasião do 58o aniversário do fim da II Guerra Mundial. O primeiro-ministro Junichiro Koizumi acrescentou que ?a nação deveria firmar uma garantia de renúncia da guerra, contribuindo ativamente para o estabelecimento de uma paz duradoura no mundo, como membro da comunidade internacional?. Na cerimônia do dia 15 de agosto, estavam presentes cerca de 5.000 membros de famílias que perderam parentes na guerra. Calcula-se que cerca de 3,1 milhões de japoneses foram mortos nessa guerra. A primeira geração de salesianos japoneses, fruto do trabalho vocacional do Venerável Vicente Cimatti, o ?Dom Bosco do Japão?, era composta de uns 20 jovens clérigos estudantes. Foram todos para a guerra e nenhum voltou. A Sra. Takako Nagano, hoje com 66 anos, escreveu uma carta em inglês ao jornal ?The Daily Yomiuri?, narrando suas experiências no final da guerra, como depoimento pessoal, que aqui reproduzo: ?O último ano da guerra foi um período de turbulência no Japão. Eu fazia o primeiro ano da escola elementar perto de Osaka. As pessoas viviam num medo constante das incursões aéreas. No dia 15 de março de 1945, os americanos bombardearam Osaka com furor e a cidade ficou toda em chamas em questão de segundos. O céu tomou uma cor vermelha em toda a sua extensão, como certas tardes ao pôr-do-sol. Muitas pessoas naquele dia perderam seus entes queridos e suas casas. Eu fui levada para o sopé do Monte Yoshino, na província de Nara. Ali, alunos, professores e governantas viviam separadamente em abrigos improvisados. Diminuiu o medo dos raides aéreos, mas eu vivia separada de minha família, sem saber quando nem se voltaria um dia a Osaka. Nossa comida era pouca e eu vivia continuamente com fome. Alimentava-me de mel e castanhas silvestres, mas cada dia ficava mais magra. Estudava três horas pela manhã e à tarde, ia para a floresta recolher madeira, que trazia nas costas, para cozinhar o arroz e esquentar a água. Meu Pai saía de casa bem cedo pela manhã no domingo, para me visitar em Nara e me trazia sempre alguma comida, embora fosse pouca também para meus parentes que ficaram em Osaka. No dia 15 de agosto, o imperador Showa anunciou a rendição do Japão. Eu, na verdade, não sabia o que estava acontecendo. Todos os estudantes e professores se reuniram em torno do rádio para ouvir as notícias. Só no dia seguinte, é que me dei conta realmente de que a guerra tinha acabado e que o Japão perdera. Eu dificilmente podia acreditar nisso. Um mês depois, podemos voltar para Osaka e retomar nossos estudos. Desapareceu o medo das incursões aéreas, mas muitas pessoas ainda viviam preocupadas em arranjar comida, roupa e moradia. Hoje, 58 anos depois, para as novas gerações, é difícil compreender como o Japão se tornou um lugar de paz e de conforto.? ?Nós nunca devemos permitir que a guerra aconteça outra vez e sempre lembrarmos que devemos nossas vidas pacíficas ao sacrifício feito pelas vítimas da guerra? - conclui a professora Nakano, como uma lição para o mundo. (*) É ARCEBISPO EMÉRITO DE MACEIÓ, ORA EM VISITA MISSIONÁRIA NO JAPÃO