Opinião
Duas fronteiras
EDUARDO BOMFIM * Ao contrário do que afirmam alguns setores, o dia sete de setembro possui um grande significado não só para o Brasil como em relação ao contexto histórico e geopolítico mundial. A história do País tem sido invariavelmente narrada do ponto de vista das elites dominantes. Esta é apenas uma das visões distorcidas sobre o itinerário complexo da formação da nação, marcada sempre pela exploração dos ?danados da terra?, acarretando, em conseqüência, a maior concentração de riquezas do planeta. Há também uma outra visão desvirtuada, segundo a qual nada temos a comemorar. O sentimento de orgulho, brasilidade do povo seria típico de alienados, de trouxas, vítimas de um monumental conto-do-vigário. Assim, uma interpretação oligárquica da nossa existência, encontra-se como em uma volta de trezentos e sessenta graus, com o olhar míope de parcelas da esquerda nativa. Desta maneira, somos quinhentos anos do nada total e absoluto ou um país desmemoriado da sua própria personalidade, amnésico. Daí que a comemoração da nossa independência seria de uma estupidez que não tem medida. Uma colossal miragem de mil desertos. Significaria, igualmente, que os Inconfidentes de Tiradentes e tantos outros rebeldes, patriotas, no Sul, Norte, Nordeste, que se bateram pela nossa liberdade e por ela morreram ao longo desses tempos, perderam as suas vidas inutilmente. Seríamos, então, uma impressão óptica fantástica, um resultado de efeitos especiais, uma grande ilusão. Esta nação continental, este chão, não possuiriam existência real. Os que morreram nos combates pela abolição da escravatura, em defesa da República, pelas liberdades políticas, contra as mais diversas formas de arbítrio, teriam quedado em vão. A verdade é que este País, desde o século dezesseis, processou um sincretismo racial singular, de uma riqueza antropológica extraordinária. Uma cultura vivíssima, contagiante, diversificada. Esta é a nossa segunda fronteira, a cultural. A outrora América portuguesa, cujas incontáveis riquezas são cobiçadas pelas grandes potências mundiais hegemônicas, possui um destino a ser construído, porque como disse Darcy Ribeiro, trata-se de país em ?fazimento?. Além disso, é um mercado imenso, possuindo um complexo parque industrial urbano e agrário. A História do Brasil é rica em combates de resistências nacional e popular. Aliás, no curso de toda a nossa trajetória, sempre a brava contenda pela nossa soberania integral esteve ligada aos sinuosos, tormentosos e sangrentos combates pela emancipação social das mais diversas camadas dos trabalhadores. Segundo o ?Dicionário das Batalhas Brasileiras?, de Hernani Donato, de 1500 até os dias atuais, mais de dois mil combates foram travados, em terras brasileiras ou estrangeiras, a exemplo da presença da FEB nos enfrentamentos contra o nazi-fascismo. O nosso povo abomina qualquer regime antidemocrático forjado na repressão às liberdades políticas e de capitulação aos interesses do capital internacional. Este é um traço definitivo, marcado na conformação ideológica dos brasileiros. Portanto, o sete de setembro não deve constituir-se em uma data formal, cuja lembrança nas diversas gerações é sempre o desfile convencional das armas ou a possibilidade eventual de um gostoso feriadão. Nós estamos vivendo sempre, dia após dia, a nossa independência. Porque, ela é incompleta. Estamos construindo-a permanentemente. Como nos árduos, porém esperançosos tempos atuais. Outros momentos advirão. Alguns mais amenos, outros trágicos. Mas a luta será sempre gloriosa. (*) É ADVOGADO