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Greves

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MARCOS DAVI MELO * O general De Gaulle visitou uma repartição pública um pouco antes da hora em que deveria funcionar para ver o que encontraria. Recebera denúncias de que a freqüência de funcionários lá era escassa. O que viu o surpreendeu. Paletós nas costas das cadeiras, cinzeiros por limpar, gavetas abertas, máquinas de escrever com papel no rolo, interrompida a redação de ofícios e avisos. Ao sair, deixou um bilhete para o chefe do serviço: ?Por favor, peça a seus funcionários para não saírem antes de chegar?. A prolongada greve do funcionalismo público federal trouxe prejuízos consideráveis aos estudantes das universidades e principalmente aos usuários do INSS. Subentendendo-se que a greve foi decorrente da reforma da Previdência e que esta foi aprovada na Câmara por um governo de esquerda, historicamente ligado aos pleitos dos trabalhadores (mesmo se reconhecendo que foram discriminados em relação a outros segmentos do funcionalismo), fica difícil para os vitimados pela greve se solidarizarem com o movimento. A população mais carente, aquela que depende do INSS, terá as suas razões para chiar. Submetida a uma condição de trabalho (quando consegue emprego) geralmente ainda pior na iniciativa privada, onde, além dos salários igualmente baixos, convive com a guilhotina da instabilidade e a permanente cobrança dos chefes e patrões, engrossará o coro dos descontentes. Justo e inquestionável é a postulação por melhores condições de trabalho, de salários, de aposentadorias e as greves são um dos recursos do trabalhador para lutar pelos seus interesses. Mas, para o conjunto da população, que convive cotidianamente com dificuldades semelhantes ou piores que as enfrentadas pelo servidor público, a greve é um imponderável acréscimo às suas dificuldades. Foi em cima de momentos como este que o serviço público foi depreciado em sua importância. O desmonte do setor público foi focado não só nos conhecidos excessos, como o empreguismo, a inchação, o nepotismo, o acumulo de feriadões e o perdularismo, como também na questão ideológica, que, aproveitando-se disto, visava reduzir o Estado à condição de Estado Mínimo. Todavia, a generalização sempre é perigosa. As greves dos funcionários públicos federais veio em represália à uma reforma da Previdência aprovada pela Câmara e pela maioria da população. A nova greve que esta semana se esboçou em Alagoas (a dos trabalhadores da saúde estadual) reivindica salários um pouco mais dignos. Estes são os primos pobres do funcionalismo público. Suas condições de trabalho e remuneração são ainda piores. Mesmo assim terão dificuldades para contar com o apoio da comunidade. Em um País em recessão, com empobrecimento geral e cansado de qualquer coisa que simule privilégios, um emprego estável, mesmo que alcançado às custas de um concurso público, pode sugerir um privilégio e um motivo de cobiça. E a cobiça e a inveja não são solidárias. (*) É MÉDICO

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