Opinião
De Bronson a Richelieu
RONALD MENDONÇA* A cara de mau do ator Charles Bronson, recentemente falecido, encaixava-se como uma luva na pele de um engenheiro-justiceiro que cobrava com juros e correção monetária as agressões recebidas. Lembro de um dos episódios de ?Desejo de Matar? em que a filha do engenheiro morria espetada nas grades de um muro, depois de estuprada por uma gangue de desocupados. A cena teria sido mais chocante não fosse o descuido dos técnicos do filme que deixou claro que a figura empalada era uma boneca de pano. Desiludido da justiça dos homens e sem acreditar na justiça divina, o personagem vivido por Bronson tornou-se um implacável caçador de marginais. Em cada filme ? foram quatro -, alguém do círculo mais próximo do justiceiro era atacado por gente que escarrava na lei e que certamente ficaria impune. Injuriado, o engenheiro ia à lutae o desfecho era sempre o mesmo. Um crítico de cinema contabilizou as execuções de Bronson: passavam da centena. Sem entrar no conteúdo moral dessas histórias, o fato é que a vida real e a ficção às vezes andam de mãos dadas. Guardando as devidas proporções, vejam, por exemplo, como o governo e o seu partido reagem quando se trata de enquadrar seus recalcitrantes. Vocês lembram, a coisa bem não tinha começado quando os chamados ?radicais chiques? (ou ?livres?) botaram as bocas nos trombones criticando desde a escolha do banqueiro Meirelles para o Banco Central até o projeto da Previdência, passando pela elevada taxa de juros e o acordo com o FMI. Hoje, quase ninguém duvida de que os ?radicais? são cartas fora do baralho do PT. O caso da deputada Maninha, de Brasília, é uma pintura. A petista, depois de conseguir uma boca para o consorte no Ministério da Saúde, ensaiou pôr as manguinhas de fora abstendo-se de votar no projeto da Previdência. Não deu outra, o maridão da ousada recebeu cartão vermelho e voltou mais cedo para o chuveiro. Bronson não agiria diferente. Aliás, das singularidades da atual administração, as dos critérios para nomeações para preenchimento de cargos técnicos vêm dando o que falar. É que o PT, nesse terreno, dá um banho. Num mundo onde a marca da ingratidão parece guiar o ser humano, Lula abre o seu coração e cria ministérios e secretarias especiais para abrigar seus amigos que não conseguiram se eleger. Como não há nada a fazer nesses cargos, supõe-se que seus titulares estejam tentando se recuperar dos traumas da derrota. Outro fato notável é a profunda espiritualidade presidencial revelada pela contratação de um assessor que é um verdadeiro ícone da piedade religiosa, Frei Betto. Pena não estarmos nos tempos de outro Luiz, e, por conta disso, impedidos de transformar o querido confessor presidencial num Richelieu dos trópicos. (*) É MÉDICO E PROFESSOR DA UFAL