Opinião
Conjuntura radical
Celso Furtado, um dos mais eminentes economistas brasileiros (nome proposto para concorrer ao Prêmio Nobel de Economia deste ano), defendeu a adoção da moratória da dívida externa como uma alternativa política de negociação com o Fundo Monetário Internacional e os credores externos. Uma proposta ousada, antes só mencionada como bandeira dos grupos mais radicais, a idéia volta à tona num bom momento ? se não como opção imediata, mas como catalisadora de um necessário processo de discussão sobre uma necessária mudança de rumos no política de subserviência radical ao modelo econômico herdado (e ainda em vigor) do governo passado. Uma breve e sucinta retrospectiva da formação histórica de nossa dívida externa ajuda a entender os dilemas que o novo governo enfrenta nas negociações para decidir se renova ou não o acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI) e em quais bases isso se dará. Existem, fundamentalmente, três movimentos cíclicos de endividamento do país: um primeiro, caracterizado pelo crédito externo abundante e as baixas taxas de juros; segundo, marcada pela escassez de crédito e elevação dos juros; o terceiro, quando o acesso ao crédito externo se resume, fundamentalmente, ao refinanciamento parcial do serviço da dívida, provocando recessão na economia e exigindo crescentes saldos na balança comercial para compensar a falta de crédito para fazer face aos compromissos internacionais. Romper com esses ciclos nunca será tarefa fácil. A adoção da moratória nos termos propostos pelo economista Celso Furtado necessitaria preparação prévia do País para as conseqüências do ato unilateral e não poderia ser adotada a médio prazo. A renovação do acordo com o FMI, mesmo que realizada em bases mais favoráveis, como torce o governo, apenas daria continuidade à dependência histórica. Mas, devido às baixas reservas internacionais brasileiras, um novo acordo deverá ser inevitável e com base nas regras ditadas pelo fundo. Nesse cenário, resta torcer para que o chamamento de Celso Furtado repercuta, ao menos, na abertura de uma temporada de caça a novas soluções para esse problema estratégico.