Opinião
Burocracia m�dica
FERNANDO GAMELEIRA * A relação médico-paciente, conforme nos ensina o mestre Gilberto de Macedo, é o encontro do paciente, fragilizado pela doença e do médico, em que a pessoa doente confia estar preparado e predisposto a catalisar o reencontro com a saúde. Não há espaço para burocracia nesta relação. Existe uma ameaça concreta ao livre exercício da Medicina, desde os ambulatórios públicos até os mais sofisticados consultórios privados: os burocratas dos planos de saúde e do SUS. As determinações abusivas destes senhores iniciam-se com a obrigação do preenchimento de inúmeros formulários para a solicitação de exames, passa pela determinação de detalhamento absurdo nas receitas de medicamentos ditos controlados (e que efetivamente não têm controle algum) e atinge o seu ápice nas UTIs e Serviços de Emergência, onde a imperiosa ordem burocrática obriga os médicos a perder tanto tempo preenchendo formulários inúteis, que sobra pouco tempo para o efetivo atendimento dos pacientes. Não é difícil imaginar quantas vidas são ceifadas por esta injustificável conduta. A perplexidade dos médicos não impede o avanço dos burocratas. Existe um plano de saúde em Maceió que não aceita os atos médicos dos colegas que não são credenciados pelo mesmo, em um flagrante desrespeito ao Código de Ética Médica. Outro plano obriga que cada item de um exame complementar seja feito em uma folha separada, com o exclusivo objetivo de dificultar a solicitação de exames, em nova agressão ao nosso Código de Ética. É curioso como o modo de agir dos burocratas é semelhante: quase nunca se identificam; são autoritários e subservientes e não manifestam a menor sensibilidade diante dos malefícios que provocam. Sou responsável pelo ambulatório de epilepsia do Hospital Universitário da Ufal e estou sempre diante do dilema das prescrições de remédios anticonvulsivantes: Se obedecer os ditames do SUS e do Ministério da Saúde, deixarei de prescrever remédios para pacientes que estão necessitados, pois a quantidade permitida para cada receita é infinitamente menor do que a necessidade do paciente até a próxima consulta. Se quiser oferecer a possibilidade de o paciente ser corretamente medicado, tenho que dar várias receitas sem data, o que representa uma atitude ilegal, pois a receita é um documento e todo documento deve ser datado. Além disso, imaginem o tempo que me sobra para atender efetivamente o paciente, se tiver que fazer até dez receitas para cada consulta. Cabe a todas as entidades médicas, sobretudo ao Conselho Regional de Medicina, uma atitude de saudável enfrentamento desta questão. (*) É MÉDICO NEUROLOGISTA E VICE-PRESIDENTE DO SINDICATO DOS MÉDICOS DE ALAGOAS