Opinião
O mestre Jos� Alo�sio
JOSÉ MEDEIROS * E assim se passaram 27 anos... Em meu horizonte de tempo não me parece tão distante a noite em que fiz a apresentação oficial do folclorista José Aloísio Vilela como conferencista na ?Semana de Cultura Popular?, realizada, numa promoção conjunta, pela Ufal, Ematur e Departamento de Assuntos Culturais. Um gesto protocolar de saudar o palestrante, vez que ele era conhecido e admirado pelo público presente. Para situar o leitor informo que tudo isso ocorreu no dia 1º de setembro de 1976. O mestre José Aloísio falou sobre o tema ?Vaquejada?. Essa noite ficou gravada em nossas memórias, para jamais ser esquecida. O palestrante comemorava bons e saudáveis 73 anos. Na manhã seguinte, foi vitimado num desastre automobilístico quando se dirigia à cidade de Aracaju, a fim de participar de um evento cultural. Dez horas antes desse lutuoso acontecimento havíamos privado de sua agradável companhia. Para todos nós, a imagem que nos vinha à mente era a de que um raio havia fulminado um vigoroso jequitibá, essa árvore frondosa que representa tão bem a zona da mata onde nascera. Morrera uma das expressões marcantes do saber do povo, das tradições populares, cantorias e desafios de violeiros, reisados e guerreiros, fandangos e maracatus. Versado em cultura popular era sobremodo um homem culto: poeta de bons poemas, escritor de agradáveis textos, autor de obras reconhecidas nacionalmente como ?O Coco de Alagoas?. Membro do Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas, da Academia Alagoana de Letras, era convidado para congressos e reuniões como conferencista. Era pessoa simples, de fino trato, na convivência com amigos e pessoas que o conheciam. Vinte e sete anos são transcorridos, desde então, e estamos (neste 1º de setembro) reunidos no Museu Théo Brandão, em solenidade evocativa dos 100 anos de seu nascimento. Converso com amigos relembrando fatos relacionados a sua vida. Nessa ocasião, procurou-me o professor Ranilson França solicitando-me fazer um depoimento sobre esse emérito estudioso da cultura popular, em nome da Comissão Alagoana do Folclore. Organizo mentalmente o que gostaria de dizer. Mas, no palco, diante de tanta gente, da fina flor da sociedade de Viçosa e da intelectualidade alagoana, a emoção tolheu-me o raciocínio. Foram muitas recordações de momentos idos e vividos. Esqueci o script pensado e falei embalado pelo sabor da emoção e em função do sentimento que me dominava. Quem era José Aloísio Brandão Vilela? É necessário responder essa pergunta para esclarecimento de novas gerações que não o conheceram. Faço-o, recolhendo opiniões de nomes expressivos do folclore e da cultura brasileira. De Théo Brandão: ?José Aloísio era um pesquisador nato, obcecado pelo estudo das tradições e manifestações folclóricas. Um homem extraordinário, em sua simplicidade e vigor intelectual?. Câmara Cascudo, folclorista de renome, assim se referia a José Aloísio: ?Não era somente um investigador da cultura popular, mas constituía a própria cultura popular, no esplendor de sua legitimidade. Uma enciclopédia de conhecimentos folclóricos?. Do escritor Manoel Diegues Júnior: ?Sabia muito sobre tradições de sua terra, sobre a origem e significado das danças, dos cantos e folguedos populares tradicionais?. Esse mestre viçosense (alagoano em sua acepção maior) marcou presença em sua época e em seu tempo. (*) É MEDICO E EX-SECRETÁRIO DE EDUCAÇÃO E SAÚDE