Opinião
Viol�ncia e crian�as
MILTON HÊNIO * Ficamos admirados e preocupados com a situação atual da violência que domina o mundo em que vivemos. O povo americano, por exemplo, vive em estado de neurose permanente, em conseqüência das ameaças do Bin Laden. Diariamente, os meios de comunicação relatam tragédias ocorridas em várias partes do mundo, onde impera a violência sob diferentes apresentações: desde a domiciliar até os grandes conflitos armados. Onde vamos parar? A paz tão almejada por todos distancia-se cada vez mais. O pior é que a violência sempre escolhe os mais fracos como suas maiores vítimas: as mulheres, os velhos e as crianças. Os dados estatísticos sobre a violência contra as crianças no Brasil são gritantes. As Unidades de Emergência, em quase todas as capitais brasileiras, notificam a grande incidência de crianças queimadas, torturadas, espancadas e vítimas de abusos sexuais, por padrastos e parentes que convivem com elas. É inacreditável o volume desses casos. E os que vivem nas ruas? Perdidos dentro da vida, recebem toda sorte de estímulos negativos. Aqui em nossa querida Maceió vivem aos bandos em quase todas as esquinas e com o êxodo rural a situação vai complicando. Temos no Brasil perto de 30 milhões de crianças abandonadas. Cada uma com a sua história. São frutos da miséria, de pais separados, da tentativa de sobrevivência. E o pior, se perdem; as meninas se prostituem e os adolescentes tomam drogas e se tornam delinqüentes, na maioria das vezes Chegou para o povo brasileiro um tempo insuportável em que as crianças pobres morrem de fome e muitas vezes são eliminadas pelos grupos de extermínio e as crianças da classe média e rica, na fase da adolescência, morrem de medo, pois são assaltadas em busca de seus telefones celulares, tênis ou de seus automóveis. Essa violência contra as crianças, hoje, tornou-se preocupante, porém, ela sempre existiu em todos os tempos. O nascimento de Jesus foi marcado pela matança de crianças, ordenada por Herodes. Na Fenícia, há séculos, o sangue das crianças era espalhado pelos campos para propiciar boas colheitas; na Roma antiga, os pais tinham o direito de abandonar o filho, caso não gostasse dele, para que morresse de frio ou fosse devorado pelos lobos. A violência contra as crianças e adolescentes vive, atualmente, o seu ponto máximo: nas ruas, na televisão, no trabalho, nas escolas, nos serviços de saúde, nos lares. Temos que correr para ajudá-las. Um dado que impressiona: 20% das famílias brasileiras são mantidas em boa parte por crianças e adolescentes. A Declaração Universal dos Direito da Criança e o Estatuto da Criança e do Adolescente, são formas jurídicas que temos para proteger a criança e o adolescente. Com eles já caminhamos muito, mas ainda temos muita estrada pela frente. A criança marginalizada é uma conseqüência da distorção diante do estágio social do mundo, do atropelo entre os homens em busca de um lugar ao sol. Sem estímulos para superarem a si mesmos, transformam-se as crianças e os adolescentes que perambulam pelas ruas, numa geração perdida dentro da vida, criando para si uma visão unilateral da existência. Quando iremos resgatar nossa culpa? Que desapareça em breve esse terrível pesadelo social que é a criança na rua, abandonada, fruto da miséria, dos pais, da sociedade e dos governantes. Lembro-me de uma frase da grande Elizabeth Lesseur: ?Na vida somos culpados não só do mal que fizemos, mas do bem que deixamos de fazer?. (*) É MÉDICO E-MAIL: [email protected]