Opinião
Negociando firme
Na semana passada, o governo argentino decidiu não pagar uma dívida de US$ 2,9 bilhões com o Fundo Monetário Internacional (FMI). A decretação da moratória argentina seria o maior calote já dado por um país ao Fundo. A suspensão do pagamento, no meio das negociações para a assinatura de um novo acordo, provocou uma série de análises catastróficas, todas desmentidas pelos fatos posteriores. Para muitos, a decisão do governo argentino era uma temeridade, um decisão ?populista?. No mínimo, ou o FMI suspendia as negociações para a assinatura de um novo acordo com o país, ou endurecia ainda mais os termos de negociação e colocava a nação portenha contra a parede. A justificativa argentina para o calote era o baixo nível das reservas do país (US$ 13,6 bilhões). Alguns analistas avaliaram que a decisão se deveu não apenas a este fator, mas aos meandros internos da política do país, com eleições regionais em importantes cidades (inclusive na capital, Buenos Aires) e a necessidade de vitória dos candidatos apoiados pelo presidente Nestor Kirchner. Uma medida desta natureza (a moratória) ajudaria não apenas estes candidatos como o próprio presidente, que foi eleito com apenas 22% dos votos. Um dos principais obstáculos para a concretização do acordo eram as exigências do organismo que, entre outros pontos, estabeleciam: aumento do superávit primário de 3% para 4% em 2004; reajustes das tarifas públicas e compensação aos bancos pelo fim da conversibilidade. O governo argentino insistia em manter a meta de superávit primário para 2004 em 3%; em deixar de fora do acordo a questão das tarifas públicas (questão que tinha sido colocada pelo FMI para atender às pressões das empresas européias que detêm o controle das empresas públicas privatizadas, cujas tarifas estão congeladas) e em não compensar os bancos, com o argumento de que não fora eleito para socorrer o sistema financeiro. O fato é que em menos de 24 horas após a decretação da moratória, o governo argentino acertou um novo acordo com o FMI, cujas negociações se arrastavam há meses. No fim de tudo, sem alardes ou chiliques, as principais exigências argentinas foram aceitas pelo FMI e o mundo não acabou. Lições para o Brasil, que se prepara para negociar um possível novo acordo com o fundo.