Opinião
Com�rcio global
RUYTER BARCELOS * A reunião ministerial da Organização Mundial do Comércio (OMC), ocorrida em setembro, no balneário mexicano de Cancún, foi um prosseguimento da rodada de negociações lançada em Doha, no Qatar, em novembro de 2001, cujo objetivo é a liberalização do comércio mundial até 2005. Com certeza, no âmbito de tais negociações estão sendo lançadas as bases do comércio internacional para o presente século. Um dos temas tratados revela profundas diferenças de postura dos negociadores. A questão agrícola, tema sensível que dificulta o consenso, contempla a proposta dos Estados Unidos da América, juntamente com a União Européia, criando condições para que os ricos mantenham grandes subsídios agrícolas e possam proteger os cultivos locais da concorrência. Para que se tenha uma idéia mais precisa, o comércio agrícola representa menos de 10% do comércio mundial, mas, em se tratando de acordos internacionais, ressalta de importância. Para o Brasil, o cenário econômico nacional revela que o País vive um período de recessão, com a queda generalizada em itens como investimentos, consumo das famílias, indústria, agropecuária e serviços. Seguramente, o quadro atual é devido ao elevado patamar da taxa de juros praticada pelo governo federal ? taxa Selic ? que esteve nas nuvens por um tempo muito grande. Por outro lado, se assim não fosse, a inflação poderia sair de controle, vale dizer, um remédio amargo que trouxe desdobramentos negativos para a economia. A redução gradual dos juros pode, a curto prazo, promover uma bolha de otimismo, reaquecendo o mercado nacional e invertendo a tendência atual. Neste quadro, o Brasil tem sido salvo pelo desempenho das exportações. Como não se vende internamente, a solução foi colocar lá fora o excedente, mas não se sabe por quanto tempo isso ocorrerá. Além disso, a safra agrícola foi estupenda ? cerca de 120 milhões de toneladas de grãos, ajudando a manter estáveis os preços dos itens básicos da cesta alimentar dos mais pobres. Outro aspecto importante a considerar é que o País é forte em celulose, cítricos, couro e calçados, siderurgia, têxteis, dentre outros setores. O diagnóstico indica pontos fortes e pontos fracos, ameaças e oportunidades, mas preocupante é o fator tempo. Até 2005, dificilmente o Brasil encontrará as soluções internas desejadas para o crescimento sustentado, com justiça social, e a liberalização do comércio mundial, nas condições existentes e com a atual defasagem tecnológica, é uma incógnita. Não se voltará a discutir a teoria das vantagens absolutas, muito menos a teoria das vantagens comparativas, ou outra qualquer, mas, com certeza, os mais ricos não cederão espaço para os mais pobres, com ou sem especialização na produção. Não acredito em facilidades ou concessões, pelo contrário, penso que o ambiente é adverso, os países pobres perdem cada vez mais sua soberania e independência no relacionamento com os países ricos e o cenário de tendência sinaliza para uma divisão internacional do trabalho prejudicial aos emergentes como o Brasil ou até mesmo para um neocolonialismo, onde exportaremos apenas produtos de baixo valor agregado, importaremos produtos de tecnologia ultrapassada e seguirá a sangria colonial, com o envio de dólares para as novas metrópoles. Para deixar de ser vassalo espoliado pelo rei, dentre outros aspectos, é preciso investir em educação, em pesquisa e desenvolvimento, na capacitação de recursos humanos especializados em Comércio Exterior. (*)É OFICIAL DA RESERVA DO EXÉRCITO BRASILEIRO E-MAIL: [email protected]