Opinião
A sua cor
EDUARDO BOMFIM * No dia 11 de setembro de 1973, exatamente há 30 anos, o povo chileno era massacrado por uma sanguinária ditadura militar dirigida pela Central de Inteligência Americana, a célebre CIA. O presidente Salvador Allende, eleito democraticamente, morreu assassinado defendendo o Palácio de La Moneda, símbolo da legalidade constitucional que representava. Hoje, o chefe da conspiração, o general Augusto Pinochet, transformou-se em morto vivo, acossado por julgamentos de crimes contra os direitos humanos e impedido de sair do seu próprio país em função de processos que lhe são movidos em várias nações, porque cidadãos destas, foram mortos durante a carnificina promovida pelo vampiresco algoz. Enquanto isso, Allende transformou-se em uma lenda, ou melhor, uma bandeira de dignidade, relembrada com carinho e saudade, símbolo de esperança por um mundo mais justo. O morto ressuscitou e o vivo é uma múmia egípcia de filmes de horror. Sinistramente, esta mesma data, lembra a tragédia dos atentados contra os EUA, especialmente a derrubada das torres gêmeas, com milhares de vítimas fatais. O incrível neste episódio é que os terroristas foram treinados pelos americanos, mais uma vez a CIA, com o intuito, vitorioso, de derrubar o antigo governo afegão. De lá para cá, todos sabemos o que aconteceu. Uma escalada sem precedentes de violência no Extremo Oriente. No Afeganistão, no Iraque, na Palestina, e, possivelmente, desdobrando-se para outros países em um futuro próximo. Os EUA são jurados de vingança eterna pelos grupos políticos e religiosos daquela região do mundo e seus seguidores em outros continentes. Em atitude de defesa contra tais ameaças, os norte-americanos instituem novas leis que deformam a face da chamada ?democracia mais avançada do planeta?. Todos são suspeitos perante a lei. Principalmente se não forem descendentes de arianos, judeus, irlandeses ou nórdicos. A situação é tão dramática que uma nova determinação ordena que todos os passageiros que sobrevoarem o território aéreo de lá, devem permanecer sentados em suas cadeiras, até quinze minutos após a decolagem do avião ou nos quinze minutos anteriores ao pouso. Além disso, qualquer viajante será classificado através de três cores: azul, amarela e vermelha. Os azuis devem ser uns cem ou pouco mais, considerando o alto grau de paranóia que tal situação enseja. O Jornal Nacional da ?Globo? mostrou uma entrevista de um executivo brasileiro, um capitalista, absolutamente traumatizado com a sua recepção no aeroporto em Nova York. Gritos, empurrões, pânico de passageiros, pessoas pisoteadas, ameaças, etc. A embaixadora americana aqui no Brasil, explicou, na TV Cultura de São Paulo, que eles estão se ?sentindo muito vulneráveis?. É compreensível. Os amarelos serão rigorosamente vigiados desde a entrada até a saída dos EUA. Devem ser dezenas de milhões de agentes secretos. Uma nação sob a marca do pavor e da suspeição. Porque existem outros tantos milhões que não são viajantes e moram por lá mesmo e são suspeitíssimos em função das suas origens paquistanesa, iraquiana, hindu, africana, afegã e por aí vai. Estes também se encontram sob severa vigilância, segundo a imprensa internacional. Eu deduzo que metade da população vigia a outra metade. É muito difícil para nós bárbaros, mestiços, latinos, compreendermos este alto grau civilizatório a que este império chegou. Os vermelhos, estes serão sumariamente presos sem direito à defesa e sabe-se lá o que acontecerá depois. Quem passar por esta discreta triagem pode gozar das delícias da ?Grande Maçã? e assistir ?Madame Saigon?, ?O Fantasma da Ópera?, ?Cats? ou fazer compras e passear no Central Park. Um banho sublime de civilização. O problema é saber qual será a sua cor. (*) É ADVOGADO