Opinião
Experi�ncia vital
MARCOS DAVI MELO * Afirmava Benito Perez Galdos que: ?A experiência é uma chama que só ilumina queimando?. Queria dizer que o ofício de viver pode dar ao cidadão a oportunidade de aprender com a experiência diária e mesmo assim, isto não o impediria de lá e cá tropeçar. Esta semana surgiu uma crise no setor da saúde pública, que esperamos já esteja superada, ao se publicar estas notas: os neurocirurgiões da Unidade de Emergência pediram desligamento em caráter irrevogável. As razões alegadas seriam sobrepeso de obrigações para um grupo de profissionais já sobrecarregado e mal remunerado. Certo é que vivemos em um mundo injusto em um país ainda mais injusto. Há pouco tempo atrás, todavia, fez-se justiça à Justiça. Foi durante os trâmites da reforma da Previdência. Naquela ocasião, alegando razões de Estado e a importância inquestionável do funcionamento do Judiciário nas atividades da União, este Poder emplacou a maioria das suas reivindicações. Alguns analistas da grande imprensa, notoriamente maldosos e céticos, fizeram daquelas conquistas uma leitura menos altruísta: o governo diante da possibilidade de um confronto com o Judiciário que inviabilizaria todo o processo das reformas, optara pela saída útil: reconhecer a relevância do poder Judiciário e pagar o preço da fatura. Os neurocirurgiões e outros médicos que atendem na UE, como em muitos outros locais e que se defrontam rotineiramente com a possibilidade de salvar ou não muitas vidas humanas, poderiam insofismavelmente, pelo menos alegar as mesmas razões para pleitear alguma melhora em suas condições de trabalho. Oprimidos pela realidade e pela insensibilidade, terão apenas as demissões e as greves para exprimir a sua angústia. Clamam por compreensão, diálogo e apoio para continuarem seu trabalho. Mas este é um grito que não está isolado. Ele pode enriquecer o debate sobre questões fundamentais não só da medicina, como de muitas outras coisas vitais da nação: afinal, construir e equipar instituições com recursos vultosos e não dar aos profissionais a remuneração compatível é justo e viável? Pode-se substituir equipes experientes por outras sem a mesma vivência, sem prejuízos para o usuário? César, afirmava em ? A Guerra Civil? que a experiência é a mestra de todas as coisas. Os médicos da UE, como a maioria dos seus colegas precisam trabalhar em três ou quatro locais, tentando juntar o mínimo suficiente para pagar as contas no fim do mês. São questões que transcendem os limites de resolução dos gestores da medicina, sim, mas que deveriam interessar a todos os cidadãos lúcidos, principalmente o Executivo e o Legislativo e não apenas na época das eleições. (*) É MÉDICO