Opinião
Viver sem um pai
MILTON HÊNIO * Há poucos dias, um jovem, meu cliente, já na fase da adolescência (14 anos), foi ao meu consultório para uma conversa amigável, pois estava em desespero. É que seu pai havia deixado a casa indo morar em Mato Grosso. Ele, como é natural, estava transtornado. Sendo filho único, suportou com paciência as confusões que seu pai provocava ao chegar em casa. Sua mãe vivia sempre insegura. Mas na esperança de que um dia as coisas melhorassem. Agora, disse-me ele, tudo acabou e ele está vivendo momentos de grande incerteza. Conversamos bastante e procurei orientá-lo da melhor forma possível. Comentário ? Essa decadência paterna é uma das mais inesperadas e incríveis tendências da sociedade moderna. Nos últimos 30 anos, com o aumento da população e um novo conceito de vida, de que tudo é normal, a porcentagem de crianças que vivem longe de seus pais biológicos praticamente dobrou. É incrível, mas é verdade: pelo número de separações que existe atualmente no Brasil, pelo volume de mães solteiras cada dia mais crescente e pelos filhos fora do lar, calcula-se que ultrapasse os 30 milhões o número de crianças que todas as noites estão indo para a cama sem receber um beijo de boa noite de seus pais. No passado, a falta de um pai era terrível como é hoje, sendo que no passado era a morte a responsável, na maioria das vezes, pela ausência do pai diante do filho e não o divórcio, o abandono do lar ou o advento da produção independente. Atualmente, a maioria das crianças criadas somente pelas mães, apresentam um comportamento diferente em relação àquelas que vivem com o pai ao seu lado. A mudança de comportamento da sociedade em relação ao sexo, por exemplo, aumentou de forma assustadora o número de crianças que vivem sem a presença do pai ao seu lado. Um dos motivos dessa avalanche de crianças criadas sem a presença do pai é a precocidade da atividade sexual na adolescência. Nos anos 50, as jovens iniciavam essa atividade em torno dos 18 anos, enquanto que hoje é em torno dos 14 ou 15 anos. No ano de 2000 foram 13 milhões as jovens adolescentes que ficaram grávidas, sem paternidade responsável, aqui no Brasil. É que dentro deste contexto de um mundo moderno em que o sexo foi tão banalizado, inserem-se os adolescentes, em número significativo, vivendo muitas vezes, um conflito interior, pela conquista de sua identidade numa sociedade também em crise econômica, religiosa, ideológica e política. Conclusão: toda criança precisa da presença do pai para o seu desenvolvimento pleno. A mãe, desde o útero materno, é a companheira notável que lhe dá amor, carinho, cuidados, bem-querer. O pai é a figura que a criança procura imitar, olhando suas passadas, fazendo o que ele faz. Daí ela ficar perdida quando não tem essa preciosa companhia. Para educar um filho é preciso criatividade e capacidade de adaptação. Devemos estar preparados para crescer com ele, para acompanhá-lo nessa grande aventura da descoberta da vida. Com apoio e liberdade, teremos um filho realizado e responsável. Quanto mais o oferecemos, mais vamos receber. Se nos damos aos filhos, ganhamos amigos; amigos poderosos, respeitados, reconhecidos, confiantes com boa imagem, capazes de se autoafirmar, amigos que podem vencer obstáculos e com mais possibilidade de serem felizes e de nos darem felicidade. (*) É MÉDICO E-MAIL: [email protected]