Opinião
Voz do Brasil na ONU
Mantendo uma tradição desde 1949, o Brasil se pronuncia após o secretário-geral da ONU fazer o discurso de abertura da assembléia geral da entidade. Neste 2003, antes de ontem, Kofi Anan abriu a 58ª Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas e depois a palavra passou para Luiz Inácio Lula da Silva; pela ordem, falaram em seguida George W. Bush e Jacques Chirac. Preservada a honrosa seqüência, é importante destacar que continua sem resposta a antiga reivindicação brasileira de ocupação de uma cadeira fixa no Conselho de Segurança da ONU, assim como a sombra do assassinato de Sérgio Vieira de Mello continua a turvar a respeitabilidade da entidade internacionalista. O presidente do Brasil homenageou o compatriota trucidado no Iraque, lembrando que Sérgio Vieira de Mello ?sempre acreditou no diálogo. E exerceu em nome da ONU um humanismo tolerante, pacífico e corajoso que espelha a alma libertária do Brasil?. Luiz Inácio Lula da Silva centrou seu discurso em questões importantes como a ?reforma? da ONU e o combate à fome no mundo. Como não poderia deixar de ser, insistiu na reivindicação da vaga permanente para o Brasil no Conselho de Segurança. Sobre esse conselho, Lula afirmou que sua composição ?não pode ser a mesma de quando a ONU foi criada há quase 60 anos. Não podemos ignorar as mudanças que se processaram no mundo?. O mais importante, porém, é a questão da reestruturação da ONU, que deve ser entendida como essencialmente política e não organizativa ou administrativa. O problema central é que a entidade, a cada dia, perde autoridade num mundo progressivamente mais conturbado. Na verdade, a Organização das Nações Unidas não consegue emergir de um processo constante de desmoralização política; a cada conflito internacional, seu prestígio afunda mais e mais. A área mais delicada para as Nações Unidas é, sem dúvida, o Oriente Médio. Ali, quase desde a sua fundação, suas deliberações são ignoradas sem maiores cerimônias. Naquele teatro de intermináveis operações de guerra, o brasileiro Sérgio Vieira de Mello foi imolado. Até em honra de seu sacrifício, o Brasil deve insistir em sua grita por reformas na ONU, pela reconquista de sua autoridade.