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Opinião

AS ILUSÕES NA AVENIDA

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Por Marcos Davi Melo - médico e membro da AAL e do IHGAL | Edição do dia 15/02/2020 - Matéria atualizada em 14/02/2020 às 20h46

Estava no pós-operatório de uma cirurgia de doença diverticular que me causara repetidos episódios de crises de diverticulite: perdera bastante peso e coincidentemente, vestia uma roupa escura que acentuava a magreza. Foi quando cruzei com o Marcial na rua. Ele imediatamente me parou e, com fisionomia encrespada, bradou: “Alto lá, companheiro, o primeiro boneco da diretoria do Pinto da Madrugada já é o meu! Não abro mão desse direito! Espere a sua vez!”.

O Marcial Lima, um dos quatro fundadores do Pinto da Madrugada, conjuntamente com Eduardo e Braga Lyra, estava já com um diagnóstico firmado de Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA) e enfrentava essa enfermidade, que permanece um desafio à Medicina, com muita galhardia, força e até bom humor, peculiaridades que, além da rica cultura, o tornavam um ser humano amorável. Marcial nos surpreendera antes mesmo de o Pinto ir para a avenida pela primeira vez: 21 anos atrás, ao visitarmos o presidente do Galo da Madrugada, Eneias Freire, em sua sede, no Recife, para convidá-lo a vir fazer o batizado do nosso bloco, o Marcial, ali mesmo, apresentou um frevo inédito, que mais tarde entusiasmaria os foliões e ainda hoje abre o desfile do bloco na avenida.

A despedida física do Marcial do bloco ocorreu cerca de dois anos depois do diagnóstico, quando, já bastante debilitado pela enfermidade, ainda reuniu forças para ir para um hotel na orla da Pajuçara, onde, da varanda do primeiro andar, com a Maria e os filhos, acenou alegremente para os milhares de foliões. Ao entoarmos, então, aquele seu frevo pioneiro, a multidão vibrou freneticamente. Naquele mesmo ano, alguns meses depois, dignamente, ele partia. Encomendamos o seu boneco ao Botelho, mago dos bonecos de Olinda, que o confeccionou possuído por renascentista inspiração, digna de Michelangelo Buonarotti. No Carnaval seguinte, o batizamos com ecumênica reverência, antes de ele estrear na avenida.

O boneco do Marcial retornará à avenida neste sábado, regiamente acompanhado pelo do Edécio Lopes, o do maestro Manezinho e de outros sonhadores que muito colaboraram com essa que é a maior festa brasileira, a qual, nos versos de Carlos Drummond de Andrade, um fã da temática do cotidiano, na qual se baseava para exprimir a sua genialidade, é colocada em destaque: “O povo toma pileques de ilusão com futebol e carnaval. São, estas as duas fontes de seu sonho”. Que a nova geração, à frente o Netinho Lyra, com as orquestras, com a Pintoca e, prazerosamente, precedidas pelas Rolinhas, pela Confraria do Rei e pelas Pecinhas do pioneiro Dinho Lopes, propiciem uma festa popular alegre e inclusiva, sem discriminações, onde todos, de qualquer classe social e de todas as idades - com muita alegria, muita confraternização e muita paz - possam esquecer momentaneamente as agruras da vida. Evoé!

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