Opinião
Caso de amor
RONALD MENDONÇA * Um dia, alguém com real competência, um sociólogo ou algum estudioso da psicologia das massas irá debruçar-se sobre as causas e as conseqüências do esvaziamento dos clubes sociais a partir dos anos 80. Fenômeno nacional, vivi essa época e até participei junto com um grupo de amigos de um dos últimos bailes carnavalescos num dos clubes mais tradicionais de Maceió. Fracasso completo, o ambiente exalava Quarta-feira de Cinzas em pleno domingo. Era desoladora a visão de quase uma centena de mesas vazias e uma orquestra pouco inspirada ? na realidade, um conjunto de rock enxertado de instrumentos de sopro e percussão ? que não conseguia animar nem os quatro gatos pingados presentes. Estava na cara que era um improviso na tentativa de aliviar os prejuízos. A pá de cal veio no ano seguinte, quando a música foi eletrônica e nem os garçons compareceram. Já dizia o conselheiro Acácio ? repetindo a Bíblia ? que tudo tem seu tempo, e houve, sim, um tempo em que os clubes sociais cantavam de galo. Liderados pela Fênix Alagoana, havia pelo menos mais quatro ou cinco pesos pesados que mantinham como questão de honra ?botar pra quebrar? no carnaval. De repente, os salões ficaram às moscas, a turma mais jovem, sobretudo, decidiu que carnaval bom era o da Barra de São Miguel ou da Bahia com a novidade dos trios elétricos. Os mais velhos, longe dos filhos ou com eles, afastaram-se também. Não sei se foi coincidência, mas, com a morte anunciada da ditadura militar, parecia que ninguém mais queria saber de autoritarismo e de cara feia o que, de certa forma, os olhares enviesados dos diretores dos salões tradicionais simbolizavam. Sair em busca de novos espaços, bem longe de incômodas tutelas, respirando liberdade nos balneários ou nas ruas e praças de Salvador, era tudo o que se queria. Definitivamente reprovadas, as velhas fórmulas de fazer carnaval dormem, hoje, no baú das nossas lembranças. Diante da nova realidade, os clubes sociais ? muitos na mira da falência ? tiveram de escolher entre adaptar-se ou sumir. Investir em esportes revelou-se um remédio valioso para a saúde financeira dos clubes. O maior desafio, entretanto, é derrotar o preconceito e fazer com que os sócios voltem a freqüentar os clubes com suas famílias. É aí que entram a criatividade e a dedicação de Ênio Barbosa, comodoro do Motonáutica Lagoa Clube, que há anos vem dando um banho de competência. É curioso, mas não existe um único dia em que se retorne àquele delicioso clube que não se encontre alguma novidade agradável, muitas vezes artesanal, sinalizando prosperidade e incorrigível paixão. ?Ecológico? por vocação, com mil detalhes surpreendentes permeando parques e jardins primorosamente cuidados, além da inigualável paisagem, fazem dos sócios do clube pessoas privilegiadas. No fim de tudo, a grande verdade: há um irreversível caso de amor entre Barbosa e o Motonáutica. (*) É MÉDICO E PROFESSOR DA UFAL