Opinião
O pai da caridade
DOM JOSÉ CARLOS MELO, CM * O mês de setembro é sempre muito especial para a família Vicentina, porque na madrugada de 27 de setembro de 1660, há 343 anos, exatamente às 4h45, o padre Vicente de Paulo entregava suavemente a sua alma ao Deus da caridade a quem ele amou afetivamente e efetivamente e serviu na pessoa do pobre, durante 79 anos de existência. A caridade sempre lhe ardeu no benevolente coração. E que melhor símbolo para a sua caridade do que o coração de São Vicente de Paulo? Afinal não é também o coração de Jesus o símbolo marcante de seu infinito amor pelos homens? Essa mesma caridade alargou tanto seu coração às dimensões do mundo, a ponto de seus filhos espirituais o retirarem na hora de sua morte, conservando-o até hoje em um relicário de prata protegido por um invólucro de cera na Casa-Mãe das Filhas da Caridade, na rua Du Bac, em Paris, para veneração e estímulo de todos os seus discípulos e devotos. Com a riqueza de sua experiência pessoal ele dizia: ?Deus nos pede primeiro o coração, depois as obras?. A espiritualidade de São Vicente é impressionantemente apropriada e oportuna hoje para o nosso trabalho de campo junto aos sofredores e marginalizados, numa evangelização coerente e encarnada. Segundo ele, não adianta ficarmos a reclamar a falta de pão em muitos lares. É preciso ir às causas da pobreza e buscar em São Vicente de Paulo a inspiração necessária para a solução dos problemas sociais do nosso tempo. Dele se afirmava: ?O Grande Santo do Grande Século? O Pai da Caridade tinha consciência de sua visão parcial da missão de Cristo, porém acreditava reproduzir o ?específico? desta missão. Por isso afirmava a seus padres: ?Vivemos de modo muito conforme a Nosso Senhor Jesus Cristo que, ao que parece, quando veio a este mundo, escolheu, como principal tarefa, a de assistir e cuidar dos pobres. Por esse motivo, propôs como lema de vida: ?O Senhor me enviou para evangelizar os pobres?. E dizia: ?Os pobres são o meu peso e minha dor?. São Vicente reinterpretou pela caridade sua vida de fé, e a caridade reorganizou também sua visão dos pobres afirmando: ?Eles são nossos mestres e senhores?. Muito aprendemos na escola dos pobres. ?É entre os pobres, é no meio desse povo pobre que se conserva a verdadeira religião, uma fé viva; eles crêem simplesmente?. O Pai da Caridade atinge uma espiritualidade do acolhimento, da encarnação e do serviço. A memória de São Vicente nos convida a compreender e a nos posicionar corretamente diante da realidade social do nosso tempo. De modo particular, ela nos orienta concretamente no encaminhamento das nossas Pastorais Sociais. É na escola de São Vicente que aprendemos a solucionar os problemas do pobre. Ele questionava, mas não dividia. Ele defendia a justiça, mas sem esquecer o amor. Portanto, na caridade de São Vicente junto aos pobres e marginalizados não há lugar para a violência e o confronto de forças e de classes sociais. Na sociedade de seu tempo, em meio às agitações e convulsões sociais, perante todos, ele era o traço de união e aproximação, sem política partidária. Para padre Vicente de Paulo, só há lugar para a radicalização no amor, que não tem fronteiras. Ao celebrar a festa do Pai da Caridade, no dia 27 de setembro é oportuno um convite para nossa conversão pessoal e revisão de nossos métodos de agir em nome da Caridade Pastoral. Como membro da Congregação da Missão fundada por São Vicente de Paulo, saúdo toda a família Vicentina que trabalha em nossa Arquidiocese. (*) É ARCEBISPO METROPOLITANO DE MACEIÓ